A Revolução Socialista Russa de 1917

Um trem chega a Petrogrado. Uma multidão de operários, soldados e marinheiros espera um homem. Sua irmã, Maria, e sua amiga Alexandra Kollontai¹ abraçam-no. Tcherkheidze, líder menchevique, saúda-o em nome do Soviete de Operários e Soldados de Petrogrado. Ele dá-lhe pouca atenção. Sobe em um banco e dirige-se à multidão: “Caros camaradas, soldados, marinheiros e operários, eu os saúdo em nome da Revolução Russa, vanguarda do exército proletário mundial. Não está longe a hora em que os povos voltarão suas armas contra os capitalistas, seus exploradores. A revolução feita por vocês abriu uma nova época”. Silêncio atento. Ele prossegue, referindo-se à guerra imperialista (1ª Guerra Mundial em que a Rússia está envolvida): “Abaixo a guerra assassina e odiada. Paz imediata!”. A multidão ovaciona. A partir daquele instante, reconhece o seu verdadeiro líder, o líder maior da revolução, Lênin. Era o dia 16 de abril de 19172.

O capitalismo começou a desenvolver-se na Rússia mais tarde que em outros países da Europa e sob a dependência destes. Internamente, a burguesia se formou a partir do latifúndio e em aliança com ele.

A monarquia czaristaaboliu o regime de servidão no campo em 1861, mas, na prática, a submissão continuou, uma vez que os camponeses pobres não tiveram garantida a posse da terra; foram expulsos ou obrigados a fazer “parcerias” em que os donos da terra nada investiam e recebiam geralmente metade da colheita. Para as revoltas, a repressão permanecia brutal, intocável, mantidos os castigos corporais, inclusive.

Apesar desses limites, a indústria cresceu rapidamente. De 1865 a 1869, o número de operários dobrou (de 706 mil para 1,433 milhão). No final da década de 1890, era de 2,792 milhões, com a industrialização atingindo 50 províncias.

Movimento operário e marxismo: fusão decisiva

O crescimento da classe operária, aliado à manutenção de péssimas condições de trabalho, salários baixos, superexploração de homens, mulheres e crianças não tardou a provocar mobilizações reivindicatórias. Nasceram as primeiras organizações operárias.

Nessa mesma época, surgiram também as primeiras organizações marxistas, os círculos, compostos por intelectuais que traduziam, comentavam e divulgavam as obras marxistas. Um dos seus integrantes, Vladimir Ilitch Ulianov (Lênin. A Verdade nº 49), um jovem advogado, compreendeu que era necessário fundir o marxismo com o movimento operário, e os operários mais avançados deviam fazer agitação entre as massas, combinando as reivindicações econômicas (salários, condições de trabalho) com as políticas (derrubada do czarismo). Lênin dizia que “teoria não é dogma e sim guia para a ação”. Utilizando o método dialético (marxista), ele estudou profundamente a realidade russa e a evolução do capitalismo no período posterior à morte de Marx e Engels e concluiu que, em vez de se dar no centro do sistema, a revolução socialista poderia começar pelos países atrasados e dependentes, como a Rússia, os chamados elos fracos da corrente imperialista.

A União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, reunindo intelectuais e operários avançados, concretizou a fusão preconizada por Lênin; o movimento operário foi se fortalecendo até passar a intervir diretamente na vida política do país. Em 1898, realizou-se o congresso de fundação do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR).

As Jornadas de 1905

Em 9 de janeiro de 1905, 140 mil operários ocuparam as ruas centrais de São Petersburgo3, concentrando-se pacificamente em frente ao palácio imperial para apresentar reivindicações de leis que possibilitassem a melhoria de suas condições de vida e trabalho. A resposta foi uma fuzilaria que vitimou cerca de mil manifestantes. Não houve recuo. As greves se alastraram por todo o país, resultando num avanço organizativo sem precedentes com a criação dos sovietes, conselhos representativos de toda a classe em nível de um município, de uma província, de uma região.

O ano de 1905 foi também de muita agitação no campo. Os camponeses pobres marcharam espontaneamente sobre a propriedade dos latifundiários, destruindo bens e se apossando dos grãos. A rebelião grassou também entre os militares, especialmente os marinheiros, registrando-se em junho a sublevação do Encouraçado Potemkin (navio de guerra).

Em 1905, os bolcheviques compreendiam que a revolução em curso na Rússia era de caráter burguês, mas a burguesia não tinha condições de levá-la a cabo, cabendo, pois, ao proletariado converter-se em dirigente do movimento revolucionário, aliando-se aos camponeses pobres e recusando qualquer tipo de acordo com a burguesia. Os mencheviques entendiam, ao contrário, que sendo a revolução de caráter democrático-burguês, a burguesia é que deveria dirigi-la.

No outono de 1905, o movimento revolucionário já se estendia a todo o país. Em outubro, uma greve geral atinge toda a Rússia, envolvendo um milhão de operários. Os sovietes multiplicaram-se. A luta camponesa aguçou-se. Os marinheiros sublevaram-se. Os bolcheviques conclamaram as massas à insurreição armada.

A insurreição desencadeou-se em Moscou, logo que o czar determinou a dissolução dos sovietes e a prisão dos líderes bolcheviques. A greve geral não se estendeu a toda a Rússia, o que facilitou a repressão. Outras regiões se lançaram também às armas, mas o exército imperial dominou-as e, em 1907, tinha fim o movimento revolucionário.

Na clandestinidade, os bolcheviques passaram, nessa fase de refluxo, a utilizar todas as possibilidades legais de ação, como as associações de socorro mútuo e a própria Duma (parlamento controlado pelo czar).

Em 1912, o movimento operário já promove greves em todo o país, de caráter econômico e político, e os camponeses também retomam suas lutas contra os latifundiários. Os sovietes proliferam. Os bolcheviques multiplicam as organizações do partido e criam um jornal diário, dirigido por Josef Stálin,chamadoPravda (A Verdade), com tiragem de 40 mil exemplares, que se torna instrumento de informação e orientação dos operários de todo o país.

1ª Guerra Mundial

No dia 1º de agosto de 1914, a Alemanha declara guerra à Rússia e o governo de Nicolau II decreta a mobilização geral. Trava-se uma guerra entre blocos de potências imperialistas pela divisão do mundo, cada uma querendo uma fatia maior. De um lado, Alemanha e Áustria; do outro, Inglaterra, França e Rússia. O partido da burguesia liberal (os kadetes), os socialistas-revolucionários (partido camponês) e os mencheviques, de pronto, uniram-se ao czarismo para “defender a pátria”.

O Partido Bolchevique, desde o início posicionou-se firmemente no sentido de que os operários e os camponeses deveriam lutar contra essa guerra, pois não se tratava de patriotismo, e sim de imperialismo, de dominação dos povos mais fracos. A palavra de ordem bolchevique foi a de transformar a guerra imperialista em guerra civil, isto é, os soldados operários e camponeses deveriam voltar as armas contra as burguesias de seus países, derrubando-as do poder.

A perseguição policial aos bolcheviques foi intensa. Todos os deputados bolcheviques que votaram na Duma contra os créditos de guerra foram presos.A guerra foi um desastre para a Rússia. Não poderia ser diferente, pois na frente de batalha havia um exército de operários e camponeses famintos, nus, descalços e sem motivação, pois estava claro que aquela guerra não era do seu interesse. A economia estava em crise profunda. Fábricas paradas, produção agrícola em decadência. Diminuíam as riquezas da burguesia e os trabalhadores estavam a cada dia mais imersos na fome, na miséria, no sofrimento.

O ódio e a indignação tomam conta dos operários, camponeses pobres e soldados, que se conscientizaram de que para viver precisavam de pão, terra e paz.  O czar Nicolau II está isolado porque a burguesia se descontenta e prepara um golpe palaciano para derrubá-lo.

Os operários também querem derrubar o imperador, mas seus métodos são outros.O ano de 1917 começa com a retomada de grandes greves e manifestações de massa que ganham a cada dia novos adeptos.

Jornadas de Fevereiro na Rússia

O período de 22 a 27 de fevereiro(07 a 12 de março no calendário atual) é de convulsão em todo o país. No dia 26 (11 de março), os operários de Petrogrado recebem o apoio de um batalhão do exército, que abre fogo contra a guarda imperial quando ela vai dissolver uma manifestação. No dia seguinte, os operários se armam e mais soldados se sublevam. O czarismo está morto. A Revolução de Fevereiro teve, de fato, como base os sovietes de operários e soldados. Eles eram os órgãos do poder popular.

O proletariado fez a revolução, mas a burguesia (kadetes), os latifundiários aburguesados e a pequena-burguesia (socialistas-revolucionários e mencheviques) é que assumiram o poder, instalando um Governo Provisório sem levar em consideração os sovietes. Estes, entretanto, constituíram um governo paralelo, estabelecendo-se uma dualidade de poderes.

Cinco dias depois da Revolução de Fevereiro, o Pravda volta a circular abertamente, buscando esclarecer os operários e os camponeses de que o governo provisório burguês representa a continuidade da guerra imperialista e da mesma política de exploração e fome adotada pelo czarismo.

Não foi um trabalho difícil. O Governo Provisório permanecia surdo às reivindicações do povo e definiu a continuidade da Rússia na guerra. Foi neste clima que Lênin desembarcou em Petrogrado.

No dia 16 de junho, reuniu-se o I Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, no qual os bolcheviques ainda eram minoria. Mas em Petrogrado, o maior centro industrial do país, a predominância das ideias bolcheviques entre o povo já era evidente. Prova disso é que, no dia 18, 400 mil manifestantes desfilaram pelas ruas centrais da cidade, proclamando: “Abaixo a guerra! Abaixo os ministros capitalistas! Todo o Poder aos Sovietes!”.

Nos dias seguintes, o Governo Provisório determinou a repressão às massas e a prisão dos líderes bolcheviques. Lênin, mais uma vez, ingressou na clandestinidade.

O VI Congresso do Partido Bolchevique, realizado clandestinamente de 26 de julho (8 de agosto) a 3 de agosto (16 de agosto), avaliou que não havia mais condições de continuar a luta pacífica e já se tinha acumulado forças suficientes para a insurreição armada.

As forças burguesas ameaçaram esmagar a sangue e fogo qualquer tentativa de movimento revolucionário. A seguir, Kerenski (ministro social-revolucionário) incentivou um golpe planejado pelo general Kornilov, mas retirou seu apoio quando soube que não haveria espaço para ele e seria instaurada uma ditadura militar.

A derrota do golpe foi, entretanto, mérito exclusivo dos operários, soldados e marinheiros rebeldes. O episódio fortaleceu a influência bolchevique nas massas dos grandes centros e logo os sovietes de Petrogrado e Moscou contavam com maioria revolucionária.

Outubro: dez dias que abalaram o mundo

Entre a decisão do Comitê Central do Partido Bolchevique e a tomada do poder, foram dez dias de muita movimentação, definição de estratégia e tática militares, mobilizações, divisão de tarefas. Em meados de outubro, Lênin havia chegado a Petrogrado clandestinamente e comandava pessoalmente todos os preparativos.

O levante armado começou no dia 24 de outubro (6 de novembro) com a ocupação dos órgãos de imprensa da capital. A 25 de outubro (7 de novembro), as tropas revolucionárias ocuparam tranquilamente os correios e telégrafos, os ministérios, o Banco do Estado e cercaram o Palácio do Inverno. Aí, ainda se esboçou alguma resistência, resolvida rapidamente com a chegada do Cruzador Aurora, comandado pelos marinheiros de Kronstadt.

Uma nova era começava. Na mesma noite, instalou-se o II Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia com maioria bolchevique. Lunachárski, dirigente bolchevique, leu uma proposta redigida por Lênin e aprovada pelo Pleno do Congresso: “Apoiando-se na vontade da enorme maioria dos operários, soldados e camponeses,o congresso toma o poder nas suas mãos”.

Enquanto isso, reunido com o Centro do Partido, órgão que dirigiu a insurreição vitoriosa, Lênin declarava: “Comecemos imediatamente a edificação do socialismo!”.

Luiz Alvesadvogado

 

¹ Alexandra Kollontai, ministra do governo bolchevique e escritora. Autora de A Nova Mulher e a Moral Sexual.

²O calendário russo era diferente do ocidental. De acordo com ele, a Revolução Socialista ocorreu no dia 25 de outubro. Em janeiro de 1918, foi aprovado o uso do calendário ocidental. Assim, continuou a denominação Revolução de Outubro, mas sua comemoração ocorre em 7 de novembro, de acordo com o novo calendário.

³Fundada pelo czar Pedro, o Grande, em 1703, São Petersburgo teve o nome alterado para Petrogrado. A partir de 1924, o nome mudou novamente para Leningrado, em homenagem ao grande líder da Revolução Bolchevique. Com a retomada do poder pela burguesia imperialista, a cidade voltou, em 1991, a se chamar São Petersburgo.

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A Revolução Russa e a transformação na Educação

Em Petrogrado, então capital do decadente Império Russo, milhares de operários, camponeses e soldados, sob a direção política do Partido Bolchevique, tomaram o poder na Rússia em 1917 e instauraram um novo regime político e passaram à construção do socialismo, no qual todas as riquezas passaram a pertencer ao povo. Contudo, a revolução não pode ser vista apenas como um evento limitado àquela data de 25 de outubro (7 de novembro), mas sim como um processo que teve recuos e ápices, antes e depois. Um exemplo disso foi a educação e a ciência, pois, por séculos, a maioria dos russos e demais nacionalidades tiveram negado o direito à formação acadêmica e profissional, sem contar que, mesmo com mentes brilhantes vivendo em solo russo, os incentivos à ciência eram irrisórios.

Isso não ocorreu por acaso. Para manter sob as mais duras rédeas e condições 100 milhões de russos, ucranianos, cazaques, finlandeses, uzbeques, poloneses, armênios, entre outras nacionalidades, o czarismo negava qualquer tipo de incentivo à educação, visando a manter na ignorância e no obscurantismo milhões de indivíduos. As poucas universidades e centros de educação eram mantidos pela Igreja Ortodoxa, aliada do czar, que perseguia as lideranças, fossem estudantes ou professores, que questionassem a ordem vigente. Muitos camponeses, em pleno século 20, ainda acreditavam que o czar Nicolau II fora escolhido por intervenção divina como “líder” do país. Essa mentalidade precisava ser combatida com um gigantesco processo de educação popular tanto nas cidades quanto no campo.

Grandes nomes na área da ciência e da educação, como o do fisiologista Ivan Pavlov, e do psicólogo Lev Vygostky, foram financiados pelo Estado após a revolução, com suas pesquisas sendo destinadas ao bem comum da sociedade, não para enriquecimento individual. A grande mentora deste novo modelo de educação e ciência na Rússia Soviética foi a educadora comunista NadezhdaKrupskaya que, muito antes da Revolução de Outubro, já vinha fazendo um enorme trabalho de alfabetização de operários e soldados, seguindo um modelo que fez sucesso entre milhares de pessoas, no qual aqueles que obtinham sucesso na alfabetização tinham, como única condição de contrapartida, a tarefa de ajudar os demais colegas nesse processo de educação popular.

Educação gratuita

Krupskaya entrou para a história como uma das primeiras mulheres a ocupar um alto cargo de Estado, a de comissária do Povo de Instrução Pública, equivalente ao cargo de ministra da Educação. Sua formação em Pedagogia a ajudara na elaboração de um projeto de ensino formador e emancipador, definindo as bases do novo sistema educacional. Teve artigos publicados no jornal Pravda (A Verdade), em meados de 1917, nos quais abordava a importância da juventude na construção do socialismo. A União Soviética, em pouco tempo, não apenas erradicou o analfabetismo a índices decimais, como também se tornou o primeiro Estado a garantir educação gratuita e com amplo acesso, desde a creche até a universidade.

O lema “Que aquele que sabe ler e escrever ensine àquele que não sabe” era a diretiva repassada às instituições de ensino e distritos do imenso território soviético. Comissões de acompanhamento e orientação foram criadas, como a Comissão Extraordinária de Eliminação do Analfabetismo, em 1920. Além disso, para a industrialização que o país necessitava, desde os transportes até a eletrificação, apenas a formação profissional dos operários e da juventude era capaz de tornar vitoriosa a construção da indústria socialista. A NEP, e depois os planos quinquenais, foram a sequência de um projeto econômico que tinha a educação como principal aliada. A planificação da economia, em substituição à antiga anarquia capitalista da produção, era essencial ao funcionamento do país, no qual o ensino politécnico, ligando a teoria à prática, era a base educacional deste projeto.

Ao camponês, a distribuição das terras e a extinção do latifúndio não poderiam ser consideradas como o fim dos conflitos agrários. Para o fortalecimento da consciência de classe dos trabalhadores do campo, fez-se necessário não apenas alfabetizar, como também construir mecanismos de formação profissional e incentivo econômico aos pequenos agricultores e cooperativas de camponeses. Enquanto que, no czarismo, eles tinham suas plantações roubadas e suas vidas constantemente ameaçadas, no socialismo o Estado se punha como protetor e como financiador do trabalho do camponês. O acesso às escolas politécnicas, a fabricação em larga escala de tratores e a promoção da cultura, com a instalação de cinemas nos mais remotos vilarejos, são exemplos da intervenção do Estado na melhoria das condições de vida do povo do campo.

Uma nova mentalidade nas escolas

Nas cidades, grandes universidades foram erguidas, pois dali sairiam professores, engenheiros, médicos, advogados, psicólogos, biólogos, filósofos, antropólogos, entre outros, todos comprometidos com a sociedade a que pertenciam, comprometidos com o seu próprio povo, recebendo uma educação de alta qualidade, com todos os direitos garantidos, desde o transporte gratuito aos estudantes até a garantia da alimentação e da moradia. Totalmente diferente é a mentalidade no sistema de educação capitalista, o qual apregoa o acesso à universidade como uma forma de promoção individual, no qual o conhecimento ali adquirido servirá para enriquecimento pessoal e/ou das empresas que o contratarão.

O sistema de educação socialista, na URSS, foi, é e será referência a todos os povos que lutam contra as grandes lacunas existentes de profissionais preparados para enfrentar os desafios dos mais diversos ramos. A derrota da Alemanha Nazista, uma potência mundial, foi fruto do esforço e do sacrifício de dezenas de milhões de homens e mulheres soviéticas nas frentes de batalha. Contudo, as modernas armas, os modernos transportes e a moderna tecnologia, todas socialistas, foram essenciais na derrota da besta nazista na Segunda Grande Guerra. Tudo isso foi possível graças às grandes realizações no campo da educação e da ciência, realizadas pela juventude e pelos trabalhadores soviéticos profundamente ligados à construção do socialismo, com a edificação da sua própria pátria, defendendo-a de todas as formas possíveis, mantendo viva a chama da liberdade.

Matheus Nascimento, Belém

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A imprensa como organizador coletivo

No seu artigo Até a raiz (v. o nº 98 da Pravda), Ingúlov tratou da importante questão do significado da imprensa para o Estado e o Partido. Parece que, para reforçar a sua tese, valeu-se do Informe de Organização do Comitê Central, onde se afirma que a imprensa “estabelece vínculos de importância incalculável entre o Partido e a classe operária, veículos que pela sua força equivalem a qualquer aparelho de transmissão que possua caráter de massas, que a imprensa é o instrumento mais poderoso pelo qual o Partido, cotidianamente, de hora em hora, fala com a classe operária”.

Mas, na sua tentativa para resolver a questão, Ingúlov cometeu dois erros: em primeiro lugar, tergiversou o sentido do trecho citado do Informe do Comitê Central; em segundo lugar, perdeu de vista o papel importantíssimo de organizador da imprensa. Creio que, dada a importância da questão, conviria dizer algumas palavras sobre estes erros.

  1. Do informe não se deduz o fato de que a função do Partido se deveria limitar a tarefa de falar com a classe operária, mas, ao contrário, o Partido deveria conversar e não apenas falar com a classe operária. A contraposição da fórmula “falar” à fórmula “conversar” não passa de equilibrismo insensato. Na prática, uma ou outra coisa constituem um todo indivisível, que se exprime na constante ação recíproca entre o leitor e o escritor, entre o Partido e a classe operária, entre o Estado e as massas trabalhadoras. Esse fenômeno se tem verificado desde o começo da existência do Partido proletário de massas, desde os tempos da velha Iskra. Ingúlov errou ao pensar que essa influência recíproca só teve início alguns anos depois da tomada do Poder pela classe operária na Rússia. O sentido da passagem citada, extraída do Informe do Comitê Central, não se encerra na palavra “falar”, mas no fato de que a imprensa “estabelece vínculos entre o Partido e a classe operária”, vínculos “que, pela sua força, equivalem aos de qualquer aparelho de transmissão que tenha caráter de massas”. O sentido da citação reside na importância da imprensa no terreno da organização. Justamente por isso a imprensa foi incluída no Informe de organização do comitê central como uma das correias de transmissão entre o Partido e a classe operária. Ingúlov não compreendeu a citação e involuntariamente lhe tergiversou o sentido.
  2. Ingúlov sublinha o papel da imprensa como instrumento de agitação e denúncia, acreditando que aí termina a tarefa da imprensa periódica. Alude a uma série de absurdos cometidos no nosso país, afirmando que o trabalho de denúncia da imprensa, a agitação através da imprensa, constituem a “raiz” do problema. Ora, é claro que, não obstante toda a importância do papel de agitação da imprensa, o aspecto mais imediato do nosso trabalho de edificação consiste, hoje, na função organizadora da imprensa. Não basta que os jornais agitem e denunciem mas é preciso que tenha uma ampla rede de ativistas, de agentes e de correspondentes em todo país, em todos os centros industriais e agrícolas, em todos os distritos e subdistritos, para que o fio passe do Partido, através do jornal, a todas as zonas operárias e camponesas, sem exceção; para que a ação recíproca entre o Partido e o Estado, por um lado, e as zonas industriais e camponesas, por outro, seja completa. Se um jornal tão popular como, por exemplo, o Biednotá*, convocasse de quando em quando uma conferência dos seus principais agentes, em diversos centros do país, para uma troca de ideias e um balanço das experiências, e cada um desses agentes convocasse por sua vez uma reunião dos seus correspondentes nas próprias zonas, nos vários centros e distritos, com o mesmo fim, dar-se-ia desse modo o primeiro passo, não somente para estabelecer vínculos orgânicos entre o Partido e a classe operária, entre o estado e os mais distantes rincões do nosso país, mas também para melhorar e reanimar a própria imprensa, para melhorar e reanimar todos os colaboradores da nossa imprensa periódica. Essas conferências e reuniões tem, a meu ver, uma importância muito mais concreta do que os congressos de jornalistas “de toda a Rússia” e de outro gênero. O jornal, como organizador coletivo nas mãos do Partido e do Poder Soviético, o jornal como meio para estabelecer a ligação com as massas trabalhadoras do nosso país e para reagrupá-las em torno do Partido e do Poder Soviético: esta é, agora, a tarefa imediata da imprensa.

Não será supérfluo recordar ao leitor algumas linhas do artigo do camarada Lenin Por Onde Começar “escrito em 1901”, a propósito da função organizadora da imprensa periódica na vida do nosso Partido:

“A função do jornal não se limita, todavia, a difundir ideias, e educar politicamente e a conquistar aliados políticos. O jornal não é apenas um propagandista e um agitador coletivo, mas também um organizador coletivo. Desse ponto de vista, pode-se compará-lo aos andaimes que se erguem em torno de um edifício em construção, aos quais definem os seus contornos, facilitam as comunicações entre os construtores, ajudam-nos a subdividir o trabalho e a observar os resultados gerais alcançados pelo trabalho organizado. Por intermédio do jornal e graças a própria existência do jornal, se formará de modo espontâneo uma organização permanente, que se ocupará não só do trabalho local, mas também do trabalho sistemático geral, que habituará os seus componentes ao estudo atento dos acontecimentos políticos, a avaliar-lhes a importância e a influência sobre as diferentes camadas da população, a elaborar os métodos oportunos para exercer sobre estes acontecimentos a influência do Partido revolucionário. Por si mesma a tarefa técnica de assegurar ao jornal um fornecimento regular de matérias e uma distribuição normal obriga também a criar uma rede de agentes locais que pertençam a um único Partido e mantenham contato imediato entre si, conheçam o quadro geral dos acontecimentos, habituem-se a cumprir regularmente a parte que lhes cabe do trabalho a realizar em toda Rússia e experimentem as suas forças na organização de determinadas ações revolucionárias. Esta rede de funcionários constituirá também o esqueleto da organização de que precisamos: suficientemente grande para abarcar todo país; suficientemente vasta e multíplice para estabelecer uma rigorosa e pormenorizada divisão do trabalho; suficientemente firme para saber desenvolver ininterruptamente o seu trabalho em todas as circunstâncias em face de todas as “reviravoltas” e situações inesperadas; suficientemente flexível para saber, por um lado, evitar a batalha em campo aberto contra um inimigo de forças superiores, que tenha concentrado as suas forças num só ponto, e, por outro lado, aproveitar a incapacidade de manobra do inimigo para precipitar-se sobre ele no lugar e no momento em que menos o espere”.

O camarada Lenin falava então do jornal como de um instrumento que servia para edificar o nosso Partido. Mas não há razão para duvidar de que tudo o que disse o camarada Lenin seja inteiramente aplicável a situação em que, hoje, edificamos o Partido e o Estado.

Ingúlov deixou de levar em consideração, no seu artigo, essa importante função organizadora da imprensa periódica. Este é o seu erro principal.

Como pode ocorrer que um dos quadros principais da nossa imprensa tenha perdido de vista esta importante tarefa? Ontem, dizia-me um camarada que provavelmente Ingúlov, além da tarefa de resolver o problema da imprensa, também se propôs outra, secundária: a de “censurar uns e lisonjear outros”. Não posso afirmar isso e estou longe de negar a quem quer que seja o direito de se atribuir tarefas secundárias, além das principais. Mas não é admissível que as tarefas secundárias possam ofuscar mesmo que por um instante a tarefa principal, que é a de esclarecer o papel de organização na imprensa na nossa edificação do Partido e do Estado.

 

*Biednotá (“Os Pobres”), diário, órgão do C. C. do P. C. (b) da U.R.S.S., editado de março de 1918 a janeiro de 1931. (pág. 239).

“Pravda” (“A Verdade”), nº 99.

06 de maio de 1923Assinado: J. Stálin

 

J.V. STÁLIN – OBRAS 5 (1921-1923)Editorial Vitória Ltda. 1954-

 

 Traduzido da edição italiana – G. V.  Stálin –“ Opere Complete”

 vol. 5 EdizioniRinascita – Roma – 1952.

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Escola Nacional Manoel Lisboa

conferência 04Reunida no mês de junho, a Comissão Política do Comitê Central do Partido Comunista Revolucionário (PCR) decidiu pela realização, no fim deste ano, da primeira turma da Escola Nacional de Formação Política e Ideológica Manoel Lisboa. A escola reunirá durante 14 dias dois grupos de militantes, oriundos de diferentes regiões do país, para cumprir o conteúdo programático aprovado.

O programa de estudos da escola inclui a análise aprofundada do método filosófico marxista-leninista, do materialismo-dialético; dos fundamentos da economia política marxista; das características da sociedade capitalista em sua fase imperialista; das leis econômicas e das experiências do modo de produção socialista; da teoria da revolução proletária; dos traços fundamentais da história e da revolução brasileira; da história militar das revoluções; e das tarefas dos comunistas revolucionários frente à atual crise do capitalismo.

A construção da Escola Nacional Manoel Lisboa, como ação sistemática e permanente, é uma iniciativa de grande importância para a história dos comunistas brasileiros por permitir aprofundar e agilizar a formação política e ideológica de novos quadros revolucionários.

Com a consciência de que, como afirmou Lênin, “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”, a Comissão Política registrou que, ao longo de sua história, o PCR sempre se esforçou para levar à prática este princípio de organização.

Manoel Lisboa, em seu artigo Vencer as torturas é dever revolucionário, afirmou que uma das causas da conduta vacilante dos militantes de outras organizações revolucionárias diante da repressão – vacilações que chegavam ao ponto da delação – era a débil formação política e ideológica.

Mesmo diante das duras condições impostas pela ditadura militar, o PCR foi coerente com a necessidade da formação e editou a revista Luta Ideológica, números 1 e 2, e o jornal A Luta. Além disso, todo organismo partidário era obrigado a ter um plano de estudos, e cada militante tinha tarefas individuais de leitura.

Desde a reconstrução do PCR, o Comitê Central sempre recomendou que cada coletivo se esforçasse para realizar o estudo do marxismo-leninismo de maneira prioritária em suas reuniões. Além disso, o CC realizou quatro cursos nacionais de formação marxista-leninista nos últimos anos.  Também ocorreu um importante número de iniciativas de formação em âmbito regional, bem como por parte da União da Juventude Rebelião (UJR).

A Comissão Política considera importante que a escola dedique seu tempo ao estudo dos princípios leninistas de organização. Que se dedique ao debate sobre como desenvolver o trabalho político entre a classe trabalhadora e o povo, como realizar a agitação e a propaganda, sobre a melhor forma de atuar nos sindicatos, sobre como assistir um coletivo e sobre como realizar um curso de formação marxista em seu local de atuação. Neste sentido, a primeira turma da escola será direcionada aos quadros de direção, ou seja, aos militantes que já possuem certo conhecimento da teoria marxista-leninista e desenvolvem tarefas de direção em nível nacional ou regional.

Para a Comissão Política, o êxito da Escola Nacional depende da disciplina, dedicação, entusiasmo e trabalho em colaboração – contra a competição e o egoísmo – por parte de seus instrutores e estudantes. Os participantes da escola devem ter vontade de aprender e aprofundar os conhecimentos, levantando dúvidas e participando ativamente do debate de ideias.

Para o PCR, a formação da Escola Nacional busca atingir o objetivo de formar verdadeiros quadros revolucionários para o Partido, fazendo assim triunfar a revolução socialista no Brasil. Desta maneira, a Comissão Política convoca todas as direções estaduais e demais organismos partidários a se envolverem com afinco no cumprimento das tarefas que permitam efetivar a escola, em especial aquelas que dizem respeito à construção material e financeira.

Redação A Verdade

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O exército burguês deve e pode ser destruído

Trabalhadores em PinheirinhoExiste, em muitos companheiros e também no seio do povo, medo do exército burguês.

Muitos acham impossível vencê-lo e veem o exército exatamente como a ditadura quer: como uma coisa que está acima de nós.

Companheiros, antes de tudo, devemos pensar direitinho no que é o exército burguês. Esse exército (da burguesia) defende os interesses dos capitalistas, defende a propriedade privada (dos capitalistas) e oprime o povo contra qualquer revolta, pois nada temos para ser defendido pelo exército (da burguesia); apesar de a gente sempre ouvir dizer que o exército é o defensor da nação, O QUE VEMOS DE VERDADE É O EXÉRCITO DEFENDER OS INTERESSES DOS RICOS PARASITAS CONTRA O POVO TRABALHADOR.

Os capitalistas usam os órgãos de propaganda (rádio, jornal, televisão) e empregam a educação (o ensino) para fazer o povo acreditar que o exército defende os interesses da nação e não dos capitalistas. Querem convencer o povo de que o exército é honesto e defensor da nação, e fazer todos respeitá-lo, senão quem iria morrer nas guerras pela burguesia? Por isto, desde criança aprendemos a respeitar o exército, a propriedade dos ricos, o presidente da República e demais autoridades burguesas.

O exército da burguesia está realmente forte no momento, mas isto não significa que ele nunca será derrubado. Pensar assim é não conhecer a força da nossa própria classe; é não entender que a nossa união é uma grande força para destruir a força repressiva da burguesia. Com a nossa união e organização, podemos colocar no lugar deste exército burguês, antipopular, antinacionalista e lacaio dos interesses estrangeiros, isto é, devemos colocar no lugar desta corja um exército formado pelos melhores companheiros das classes trabalhadoras. Este, sim, será um exército realmente popular porque formado por pessoas do povo, por pedreiros, carpinteiros, torneiros, soldadores, serventes, tecelões, estudantes, sapateiros, camponeses, comer-ciários, etc. Será um exército popular e revolucionário porque defenderá os verdadeiros interesses do povo e lutará por uma sociedade melhor, uma sociedade mais perfeita e mais justa, luta por uma sociedade socialista.

O mais importante para um exército vencer e dominar é contar com o apoio do povo. A propaganda não pode ocultar a verdade nua e crua das desigualdades sociais, o desemprego, os salários baixos, a injustiça e todos os males do capitalismo. Eis a principal questão: eles têm armas, dinheiro, soldados, MAS NÃO TÊM O POVO. E como este exército da burguesia não é amado pelo povo brasileiro, nós devemos formar nosso exército. Para destruirmos este exército, que é da burguesia, temos que formar o nosso próprio exército, o exército do proletariado.

E como formar o nosso exército?

Ora, já vimos que quando estamos fracos temos que usar formas de luta mais simples para nos fortalecer. É justamente isto que falta cada companheiro compreender para colocar em prática estas questões. Já temos os exemplos do povo russo, do povo chinês, do povo cubano e exemplos de muitos outros povos, que organizados derrubaram os exércitos burgueses que ós oprimiam. No Vietnã está o mais belo exemplo de como um povo atrasado (economicamente) derrotou o exército francês e está derrotando o exército mais poderoso do mundo capitalista, as forças armadas america-nas. E o que fizeram os vietnamitas?  Lutaram, se organizaram e incenti-varam os outros a se organizar como nós, do Conselho de Luta, estamos fazendo. Saíram, de boca em boca, ensinando a verdade sob uma ditadura pior e mais sangrenta do que a nossa. Com grandes dificuldades (para aprender mais), publicavam jornais debaixo do pano, explicando, incentivando e ensinando o povo a se organizar.

O que devemos fazer?

Para formar nosso exército, dependemos unicamente do nosso esforço. Do esforço de cada um que já tem consciência, em ir organizando as massas (o povo desorganizado) e ir dando consciência aos que quase nada sabem a respeito da luta de classes, da nossa luta, e ir aumentando o número de pessoas para nossa organização, e assim iremos formando nosso Partido e daí iremos criando o nosso exército, com as pessoas conscientes de todos os setores da população, desde os companheiros operários, que serão os dirigentes da nossa luta, até os camponeses, os estudantes, funcionários públicos, pessoas politicamente boas que existam dentro das próprias forças armadas do inimigo, enfim de todas as camadas exploradas da população e que apoiam de verdade as nossas ideias e nossos métodos de luta. Temos que conscientizar as pessoas e trazê-las para nós; assim teremos condições de criar nosso exército.

Bom, companheiros, existem muitas formas de luta; o que estamos precisando é a decisão e firmeza dos companheiros para continuar os trabalhos de panfletagem que temos feito dentro das fábricas e nos bairros, desenvolver o trabalho político com outros companheiros e participar do trabalho teórico, que é escrever para os nosso jornais. Todas estas formas de luta têm a finalidade de esclarecer e organizar o povo para que ele pegue em armas de maneira consciente.

Só na luta aprendemos a confiar em nós mesmos, em nossa força, porque defendemos os verdadeiros interesses do povo e lutamos pela justiça. É isto que nos dá certeza da vitória da LUTA OPERÁRIA por meio do exército revolucionário do povo, contra o exército mercenário (vendido) da burguesia.

Todo esforço no trabalho de conscientizar o povo, todo esforço no trabalho de educar para a luta os melhores elementos das classes traba-lhadoras e trazê-los para o Conselho de Luta Operária. Todo esforço nos trabalhos que levam a formar um Partido Operário, pois o exercito revolucionário do povo, só obedecerá a um único comando que será o Partido Operário.

Só com coragem, decisão e firmeza é que se luta.

Só na luta é que se forma o Partido Comunista Revolucionário.

Só na luta se constrói o exército revolucionário do povo.

* Escrito por Manoel Lisboa em agosto de 1973, um mês antes de ser assassinado pela Ditadura Militar, e publicado na revista do PCR Luta Operária, nº 10

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O QUADRO: COLUNA VERTEBRAL DA REVOLUÇÃO

Che em discursoSeria desnecessário insistir nas características de nossa Revolução, na forma original, com alguns lances de espontaneidade, com que se produziu a passagem de uma revolução nacional de libertação para uma revolução socialista e na acumulação das etapas vividas a toda pressa no decorrer deste desenvolvimento, que foi dirigido pelos mesmos personagens da epopéia inicial de Moncada, passando pelo Granma e terminando na declaração do caráter socialista da Revolução cubana. Novos simpatizantes, quadros, organizações foram se somando à débil estrutura orgânica do movimento inicial, até se constituir no aluvião do povo que caracteriza nossa Revolução.

Quando se tornou patente que em Cuba uma nova classe social tomava definitivamente o poder, surgiram também as grandes limitações que se teria no exercício do poder estatal, devido às condições em que se encontrava o Estado, sem quadros para desenvolver o estado, sem quadros para desenvolver as tarefas que deviam se desempenhadas no aparelho estatal, na organização política e em toda a frente econômica.

No momento seguinte à tomada do poder, os cargos burocráticos foram designados “a dedo”; não houve maiores problemas, não os houve porque ainda não estava rompida a velha estrutura. O aparelho funcionava no seu ritmo lento e cansado de coisa velha e quase sem vida, mas tinha uma organização e nela a condição suficiente para se manter por inércia, não se importando com as mudanças políticas que ocorriam como prelúdios de mudança na estrutura econômica.

A 16 de abril de 1961, durante os funerais das vítimas do bombardeio do dia anterior dos aeroportos de Santiago de Cuba, San Antonio de los Banos e Ciudad Libertad, efetuado como preparação da invasão mercenária da Baía dos Porcos, Fidel Castro pronunciou a primeira confirmação oficial do caráter socialista que fora adquirindo nos fatos a Revolução Cubana: “… o que não podem perdoar-nos é que estejamos aqui, sob seu nariz, e que tenhamos feito uma Revolução Socialista sob o nariz dos Estados Unidos!”.

Em meados de 1960 se produzia entre Washington e Havana uma verdadeira escalada que radicalizava cada vez mais profunda e irreversivelmente a Revolução. As principais consequências desta situação foram as seguintes: rejeição da parte das empresas Esso, Texaco, e Shell de refinar o petróleo bruto soviético que Cuba tinha começado a importar (6 de junho); desapropriação destas companhias da parte do governo revolucionário (29 de junho de 1º de julho); redução da parte de Washington da quota de açúcar cubano no mercado norte-americano (6 de julho); suspensão total da quota; nacionalização das grandes companhias norte-americanas que operavam em Cuba (6 de agosto); mobilização da OEA contra Cuba (29 de agosto); desapropriação dos bancos norte-americanos (17 de setembro); nacionalização do resto dos interesses norte-americanos em Cuba (13 de outubro); aplicação da parte dos Estados Unidos um embargo sobre numerosos produtos de exportação para Cuba (19 de outubro).

O Movimento 26 de Julho, profundamente abalado pelas lutas internas entre suas alas esquerda e direita, não podia se dedicar a tarefas construtivas; e o Partido Socialista Popular*, pelo fato de suportar duros golpes e a ilegalidade durante anos, não pode desenvolver quadros intermediários para enfrentar as novas necessidades que se avizinhavam.

Quando ocorreram as primeiras intervenções estatais na economia, a tarefa de formar quadros não era muito complicada e podia-se escolher entre muita gente que tinha alguma base mínima para desempenhar o cargo de direção. Mas, com o aceleramento do processo, ocorrido a partir da nacionalização das empresas norte-americanas e, posteriormente, das grandes empresas cubanas, aconteceu uma verdadeira fome de técnicos administrativos. Sente-se, por outro lado, uma necessidade de técnicos na produção, devido ao êxodo de muitos deles, atraídos por melhores posições, oferecidas pelas companhias imperialistas em outros lugares da América ou mesmo nos Estados Unidos, de modo que o aparelho político deve se submeter a um intenso esforço, em meio às tarefas de estruturação, para dar atenção ideológica, a uma massa que entra em contato com a Revolução, cheia de vontade de aprender.

Todos cumprimos o papel da melhor maneira que podemos, mas não foi sem penas nem apuros. Muitos erros foram cometidos na parte administrativa do executivo, enormes falhas foram cometidas por parte dos novos administradores de empresas, que tinham responsabilidades demasiadamente grandes em suas mãos, e grandes e caros erros cometemos também no aparelho político, que, pouco a pouco, foi caindo numa tranquila e prazerosa burocracia, identificado quase como um trampolim para promoções e para cargos burocráticos de maior ou menor envergadura, desligado totalmente das massas.

O ponto central de nossos erros está em nossa falta de sentimento de realidade num dado momento. Mas a ferramenta que nos faltou, o que foi embotando nossa capacidade de percepção e convertendo o Partido numa entidade burocrática, pondo em perigo a administração e a produção, foi a falta de quadros desenvolvidos a nível médio. A política de quadros se tornava evidente como sinônimo de política de massas; estabelecer novamente o contato com as massas, contato estreitamente mantido pela Revolução na primeira fase de sua vida e que era sua palavra de ordem. Mas estabelecê-lo através de algum tipo de aparelho que permitisse tirar-lhe o maior proveito, tanto na percepção de todas as palpitações das massas como na transmissão das orientações políticas que, em muitos casos, somente foram dados por intervenções pessoais do Primeiro Ministro Fidel Castro ou de alguns outros líderes da Revolução.

A esta altura podemos nos perguntar: o que é um quadro? Devemos dizer que um quadro é um indivíduo que alcança o suficiente desenvolvimento político para poder interpretar as grandes diretrizes emanadas do poder central, torná-las suas e transmiti-las como orientação à massa, percebendo, além disso, as manifestações dessa massa com aos seus desejos e motivações. É um indivíduo de disciplina ideológica e administrativa que conhece e pratica o centralismo democrático e sabe avaliar as contradições existentes no método para aproveitar ao máximo suas múltiplas facetas; quem sabe praticar, na produção, o princípio da discussão coletiva e responsabilidade única; cuja finalidade está provada e cujo valor físico e moral se desenvolveram no compasso de seu desenvolvimento ideológico, de tal maneira que está sempre disposto a enfrentar qualquer debate e responder até com sua vida pela boa marcha da Revolução. É, além disso, um indivíduo com capacidade de análise própria, o que lhe permite tomar decisões necessárias e praticar a iniciativa criadora de modo que não se choque com a disciplina.

O quadro, pois, é um criador, um dirigente de alta estatura, um técnico de bom nível político, que pode, raciocinando dialeticamente, levar adiante seu setor de produção ou desenvolver a massa desde o seu posto político de direção.

Este exemplar humano, aparentemente rodeado de virtudes difíceis de alcançar, está, no entanto, presente no povo de Cuba, e nós o encontramos todo dia. O essencial é aproveitar todas as oportunidades que há para desenvolvê-lo ao máximo, para educá-lo, para tirar de cada personalidade o maior proveito e convertê-la no valor mais útil possível à nação.

Consegue-se o desenvolvimento de um quadro na labuta diária. Mas deve-se empreender a tarefa, além disso, de um modo sistemático, em escolas especiais, onde professores competentes sejam exemplos aos alunos, favorecendo a mais rápida ascensão ideológica.

Num regime que inicia a construção do socialismo, não se pode supor um quadro que não tenha um alto desenvolvimento político, mas por desenvolvimento político não se deve entender só o aprendizado da teoria marxista; deve-se também exigir a responsabilidade do indivíduo pelos seus atos, a disciplina que restringe qualquer debilidade transitória e que não esteja em conflito com uma alta dose de iniciativa, a preocupação constante por todos os problemas da Revolução. Para desenvolvê-lo é necessário começar por estabelecer o princípio seletivo na massa, é ali onde é necessário buscar as personalidades nascentes provadas no sacrifício ou que começam agora a mostrar suas inquietudes, e levá-las a escolas especiais, ou, na falta delas, para cargos de maior responsabilidade que ponha à prova no trabalho prático.

Assim fomos encontrando uma multidão de novos quadros, que se desenvolveram nestes anos; mas seu desenvolvimento não foi uniforme, posto que os jovens companheiros se viram frente à realidade da criação revolucionária sem uma adequada orientação de partido. Alguns triunfaram plenamente, mas há muitos que não puderam fazê-lo completamente e ficaram na metade do caminho, ou simplesmente se perderam no labirinto burocrático ou nas tentações que dá o poder.

Para assegurar o triunfo e a consolidação total da Revolução, necessitamos desenvolver quadros de diferentes tipos; o quadro político, que seja a base de nossas organizações de massa, e que as oriente através do Partido Unido da Revolução Socialista* (já se está começando a estabelecer as bases com as escolas nacionais e provinciais de Instrução Revolucionária e com os estudos e círculos de estudo de todos os níveis); também necessita-se de quadros militares para os quais se pode utilizar a seleção que a guerra fez a nossos jovens combatentes, já que ficou com vida uma boa quantidade, sem grandes conhecimentos teóricos, mas provados no fogo, provados nas condições mais duras da luta e de uma fidelidade a toda a prova como regime revolucionário, a cujo nascimento e desenvolvimento estão intimamente ligados desde as primeiras guerrilhas da Sierra. Devemos promover também quadros econômicos que se dediquem especificamente às tarefas difíceis da planificação e às tarefas da organização do Estado Socialista nestes momentos de criação.

É necessário trabalhar com profissionais, estimulando os jovens a seguir algumas das carreiras técnicas mais importantes para tentar dar à ciência o tom de entusiasmo ideológico que garanta um desenvolvimento acelerado. E é imperativo criar a equipe administrativa que saiba aproveitar e harmonizar os conhecimentos técnicos específicos com os demais e orientar as empresas e outras organizações do Estado para integrá-las ao forte ritmo da Revolução. Para todos eles, o denominador comum é a clareza política. Esta não consiste no apoio incondicional aos postulados da Revolução, mas sim num apoio racional, numa grande capacidade de sacrifícios e numa grande capacidade dialética de análise, que permite fazer contínuas contribuições, em todos os níveis, à rica teoria e a prática da Revolução. Estes companheiros devem ser selecionados na massa, aplicando-se o princípio único de que o melhor sobressaia e que ao melhor sejam dados as maiores oportunidades de desenvolvimento.

Em todos estes lugares, a função do quadro, apesar de ocupar frentes distintas, é a mesma. O quadro é a peça mestra do motor ideológico que é o Partido Unido da Revolução. É o que poderíamos chamar de parafuso dinâmico deste motor: parafuso enquanto peça funcional que assegura seu correto funcionamento, dinâmico enquanto não é um simples transmissor para cima ou para baixo de lemas e demandas, mas um criador que ajudará o desenvolvimento das massas e a informação dos dirigentes, servindo de ponto de contato com aqueles. Tem uma importante missão de vigilância para que não se liquide o grande espírito da Revolução, para que esta não durma, não diminua seu ritmo. É um lugar sensível; transmite o que vem da massa e lhe infunde o que orienta o Partido.

Desenvolver os quadros é, pois, uma tarefa inadiável no momento. O desenvolvimento dos quadros tem sido tomado com grande empenho pelo Governo revolucionário; com seus programas de bolsa de acordo com princípios seletivos, com os programas de estudo para os operários, dando diferentes oportunidades de desenvolvimento tecnológico, com o desenvolvimento das escolas secundárias e as universidades abrindo novas carreiras, com o desenvolvimento, enfim, do estudo, do trabalho e da vigilância revolucionária como lemas de toda a nossa pátria, baseados fundamentalmente na União de Jovens Comunistas, de onde devem sair os quadros de todo o tipo e ainda os quadros dirigentes da Revolução no futuro.

Intimamente ligado ao conceito de quadro está o da capacidade de sacrifício, de demonstrar com o próprio exemplo as verdades e as palavras de ordem da revolução. O quadro, como dirigente político, deve ganhar o respeito dos trabalhadores com sua ação. É imprescindível que conte com a consideração e o carinho dos companheiros a que devem guiar nos caminhos da vanguarda. Por tudo isso, não há melhor quadro do que aquele cuja massa realiza eleição nas assembleias que designam os operários exemplares, os que serão integrados ao PURS (Partido Unido da Revolução Socialista) junto com os antigos membros do ORI (Organizações Revolucionárias Integradas), que passem por todas as provas de seleção exigidas. A princípio, constituirão um partido pequeno, mas sua influência entre os trabalhadores será imensa; e logo este crescerá, quando o avanço da consciência socialista for se convertendo em necessidade o trabalho e a entrega total à causa do povo. Com dirigentes médios dessa categoria, as difíceis tarefas que temos pela frente serão cumpridas com menos contratempos. Depois de um período de desordem e de maus métodos, chegou-se a uma política justa, que não será jamais abandonada. Com o estímulo sempre renovado da classe operária, nutrindo com suas fontes inesgotáveis as filas do futuro Partido Unido da Revolução Socialista, e com a direção de nosso partido, entramos com tudo na tarefa de formação de quadros que garantam o desenvolvimento impetuoso de nossa Revolução. Haveremos de triunfar nesta empreitada.

Cuba Socialista, Setembro, 1962.

Comandante Ernesto Guevara de La Serna

____________________________________________________________

(*) O Partido Socialista Popular era um partido socialista anterior à Revolução e análogo a outros partidos de outros países.

(*) O primeiro esforço das organizações revolucionárias cubanas pela constituição de um partido marxista-leninista unificado na fase posterior à Revolução, foi a criação das ORI (Organizações Revolucionárias Integradas), agrupando num único organismo político o Movimento 26 de Julho, o Partido Socialista Popular e o Diretório Estudantil Revolucionário. Em função de sérios desvios de caráter sectário, as ORI foram extintas e se passou à formação do Partido Unido da Revolução Socialista, que posteriormente deu origem ao Partido Comunista de Cuba.

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ENVER HODJA: Ardor Revolucionário em Defesa do Marxismo-Leninismo

Enver Hodja nasceu na cidade de Arguirokastro, em 16 de Outubro de 1908. Filho de uma família mulçumana, freqüentou a escola primária da cidade natal, que foi um dos  mais antigos centros das aspirações nacionais albanesas, e aí aprendeu, além das primeiras letras, um sentimento patriótico muito elevado, de total identificação com os interesses populares.

No período da revolta democrática de 1924, conduzida pelo bispo ortodoxo e poeta Fan Noli, revolta inconseqüente que iria levar ao regime tirânico de Ahmet Pacha, apoiado por sérvios e italianos, Enver Hodja, então estudante em Kortcha, organizou a primeira manifestação de estudantes contra a opressão. Conhece, nesta altura, pela primeira e última vez na sua vida, o cárcere, aos 16 anos de idade, com muitos colegas do liceu.

Definição como comunista

Como brilhante aluno do liceu francês de Kortcha, Enver Hodja recebe, em 1930, uma bolsa do governo albanês a fim de fazer os estudos superiores na França, para onde parte no fim desse mesmo ano.

Na França, inscreve-se na faculdade de ciências Montpellier, no final de 1931, com 23 anos, e, dentro em breve, entra nas fileiras do Partido Comunista Francês (PCF).

O regime de Zogu segue a sua evolução ideológica, e faz com que lhe seja suprimida a bolsa de estudos, em feve-reiro de 1934. Enver Hodja é então obrigado a ir para Paris à procura de trabalho, e, na capital, começa a escrever, como colaborador, para o jornal do PCF  L´Humanité onde denuncia a ditadura de Zogu, que conduz a Albânia para o fascismo mais descarado, para a entrega total à Itália de Mussolini. Em seus artigos contra o fascismo, Enver Hodja chega mesmo a prever a ocupação da Albânia pelas tropas italianas, o que veio a suceder em 07 de abril de 1939.

Em Paris, Enver Hodja esteve em ligação direta com os imigrantes albane-ses, sobretudo com o grupo de comunistas que tenta criar uma “frente democrática” contra o regime Zogu, na linha das frentes populares proposta pelo Komintern como única forma de luta eficaz contra o fascismo.

Enquanto muitos outros jovens, individualmente ou aconselhados pelo grupo de Paris, partem para as brigadas internacionais, que se vão bater na guerra-civil da Espanha, Enver Hodja regressa à Albânia

Depois de um período de vários meses sem trabalho, Enver Hodja ensina, durante quatro meses, no liceu de Tirana. Em seguida, por causa do domínio da língua francesa, foi enviado para o liceu de Kortcha, onde utiliza as aulas para difundir as idéias marxistas, sob a capa democrática e antimonárquica, para assim passar mais despercebido à repressão, que o conhece bem.

Ao mesmo tempo, dedica-se à atividade política clandestina, como membro do grupo comunista de Kortcha, do qual é um dos militantes mais ativos, sobretudo no movimento sindical, ajudando os operários das oficinas artesanais e das pequenas fábricas, da cidade e dos arredores, a organizarem-se no seio das associações profissionais.

Destituído do seu posto do liceu, em 1939, sob o pretexto de não ter querido filiar-se no partido fascista, mas de fato, por ter sido um dos organizadores da grande manifestação antifascista de Kortcha, do mesmo ano, Enver Hodja passa a só poder atuar na clandestinidade.

A esta altura, ainda reina grande confusão nos grupos comunistas albaneses, separados por profundas divergências internas. Só o grupo comunista de Kortcha defendia, na prática, a criação de um verdadeiro partido comunista e o lançamento da frente anti-fascista. Foi como representante do grupo de Kortcha e com a missão de impor, pelo debate e persuasão, estas posições de princípio, que Enver Hodja foi enviado a Tirana, nos princípios de 1940.

Frente a esta situação política bastante complexa e confusa, que oscilava entre o mais descarado oportunismo de direita e o sectarismo cego, o trabalho de Enver Hodja foi prolongado e difícil, até à afirmação prática, mobilizadora, de uma linha com o completo apoio das massas populares, de luta declarada contra o fascismo.

Partido do Trabalho nasce no fogo da luta

O início da guerrilha popular, no fim de 1940, com o total apoio do grupo de Kortcha, e o deslocamento de Enver Hodja para a montanha, em contato direto com a guerrilha, em junho de 1941, deu uma contribuição decisiva  para a unidade política de princípios com os outros grupos, proporcionando o reconhecimento prático da vanguarda proletária na sua atuação concreta.

Enver Hodja consegue convocar, em 3 de novembro de 1941, uma reunião de todos os grupos comunistas, na qual luta para convencer todos os oportunistas de direita e os esquerdistas de que é possível a construção do Partido num país de classe operária reduzida. Mostra na ocasião que o partido unificado será a condição básica da vitória, a única forma de a Albânia não cair sob a hegemonia de vizinhos poderosos.

A 8 de Novembro de 1941, nasce o Partido do Trabalho da Albânia. Enver Hodja é nomeado, no ato da fundação, primeiro secretário do comitê central e passa a viver nas zonas montanhosas libertadas, onde as nove guerrilhas populares albanesas passam a formar o corpo central de combate do Exército Popular de Libertação. O jornal Zeri i populit (Voz do Povo), criado em agosto de 1942, sob a direção do primeiro secretário do PTA, surge como o elemento unificador de todo o partido, como transmissor a todos os seus membros, da teoria marxista-leninista, da linha única política, ideológica, organizativa e de ação do proletariado revolucionário.

Construindo o socialismo

Em 28 de Novembro de 1944, depois de três anos de luta vitoriosa à Frente do PTA, condutor do Exército Popular de Libertação e da Frente Popular de Libertação, Enver Hodja entra em Tirana e é eleito chefe do governo democrático da Albânia, que se estrutura sob a forma política de ditadura do proletariado vitorioso. É o início da construção do socialismo na Albânia, mas é igualmente o alvorecer de novas lutas.

É também nesta altura que Enver Hodja casa com uma professora e militante do PTA, Nedjmie Djolini, filha de uma família mulçumana da cidade de Dibra, integrante do Partido desde a fundação e responsável pela Juventude Comunista, que sempre teve uma intensa atividade política, com um papel muito ativo no movimento de emancipação da mulher albanesa.

Em 14 de Julho de 1947, Enver Hodja faz uma viagem a Moscou, a convite do secretário-geral do PCUS  Stálin. Desse encontro, derivam os primeiros acordos comerciais e culturais entre os dois países socialistas, bem como o auxílio técnico soviético, num momento em que a Albânia está no auge do esforço da industrialização e de preparação dos terrenos pantanosos do litoral para a agricultura.

Desde 1947, o presidente da Iugoslávia, Josip Broz Tito, deixa claro o desejo de anexar a Albânia, o que não passa de uma política burguesa mascarada de marxismo, que procura transformar a Albânia na sétima república da Federação Iugoslava. Mas, se encontra adeptos dentro do próprio PTA, a idéia suscita, no geral, uma oposição firme na maior parte do Comitê Central e uma total repugnância nas massas populares.

Além da independência política, da afirmação do direito de “cada povo dispor de si próprio”, segundo os princípios básicos de Lênin e de Stálin, a luta contra a tentativa de ingerência iugoslava é, também, a luta entre duas linhas: a linha proletária, o caminhar sobre as suas próprias forças, e a linha capitalista de dar predominância à técnica afastada das massas populares, seus meros executantes. É caminhando com as forças do povo que o PTA realiza a reforma agrária, pratica a diversificação da indústria e da agricultura, precavendo o abastecimento interno, para evitar qualquer gênero de dependência, qualquer tipo de chantagem econômica, como a URSS tentou fazer em 1960, ao cortar o fornecimento de trigo e de carvão, na sua tentativa infrutífera de dominar os albaneses.

O 20.º Congresso do PUCS, em 1956, no qual se juntam os representantes dos interesses da nova burguesia soviética, instalada no aparelho do PUCS e do Estado, nos seus ataques a Stálin abre o combate declarado contra a ditadura do proletariado, mas levanta uma onda de protestos na Albânia contra a defesa de posições burguesas reacionárias.

Seis meses depois do 20.º Congresso do PUCS, Enver Hodja vai a Pequim, à frente da delegação do PTA convidada a assistir ao 8.º Congresso do Partido Comunista da China (PCC), de setembro de 1956. As relações com a República Popular da China, que se tinham incrementado a partir de 1956, com grandes fornecimentos de arroz à Albânia, estreitam-se ainda mais.

Em 1960, em Bucareste, no Congresso dos 81 Partidos Comunistas e Operários, Enver Hodja é o primeiro dirigente a fazer a denúncia pública do revisionismo moderno da própria tribuna do Congresso. Em 1961, o PTA, com Enver Hodja, abandona o Pacto de Varsóvia, denunciando-o como força agressiva contra os povos do mundo, como tentativa de domínio, por parte da URSS, dos países da Europa Oriental e das massas populares

Sob o controle das massas

Em 1967, inicia-se, com toda força e prestígio do PTA, a Revolução Cultural, conduzida pessoalmente por Enver Hodja, processo de extinção das classes e de crescimento ideológico, levado a efeito sob a ditadura do proletariado. A Revolução Cultural incidiu em todos os setores da produção e da vida social. Enver Hodja, que dirige e participa ativamente de todo o processo da Revolução Cultural, apresenta, citando Stálin, a forma correta da sua condução: “ Organizar o controle pela base, organizar a crítica de milhões de homens da classe operária contra o espírito burocrático das nossas instituições, contra os seus defeitos, contra os  seus erros… Só deslocando o centro de gravidade para a crítica da base podemos esperar o sucesso na nossa luta e o burocratismo será extirpado”.

O informe político de Enver Hoda ao 6.º Congresso do PTA contém a essência política e ideológica de todo o movimento da Revolução Cultural, da luta contra o revisionismo, das bases para a continuação da construção do socialismo e  é também o reconhecimento de que é um caminho longo e difícil, um caminho de constante apuramento político e ideológico, perante o cerco do imperialismo e do social-imperialismo soviético, de continuação da luta da classe operária, de participação dos comunistas em todos os trabalhos de vanguarda, sobretudo nos mais perigosos, que exigem maior esforço e dedicação, do seu exemplo no seio do povo, do seu trabalho ao serviço do povo – como afirma Enver Hodja no Discurso histórico de 2 de Fevereiro de 1973 – de total abdicação de si próprio, sem vantagens econômicas ou regalias particulares, mas pela obrigação do seu elevado grau de consciência política, de construtores do mundo novo.

(Manuel Quirós (1939-1975), professor português, ficou preso durante quatro anos (1965-1969) nos porões da PIDE, a temida polícia política da ditadura salazarista.
Foi solto em decorrência do seu estado de saúde, debilitado em razão das torturas sofridas no cárcere. Mas a doença não o acomodou.
Dedicou-se à reconstrução do Partido Comunista Marxista-Leninista de Portugal até o último instante de sua vida.)

Nota da redação O artigo de Manuel Quirós sobre Enver Hodja foi escrito em 1974. Em 1978, a Albânia rompe com a China por discordar de sua aproximação com os EUA, com quem restabeleceu relações diplomáticas e comerciais. Sob a direção de Hodja, o PTA permanece fiel ao marxismo-leninismo, recusando-se a fazer concessões aos países capitalistas. Mas, com a morte de Enver Hodja, em abril de 1985, seu sucessor Ramiz Alia inicia um processo de reformas capitalistas que levam à destruição das conquistas da revolução. As aves de rapina do imperialismo passam a saquear a Albânia, que, hoje se encontra com seu parque industrial aniquilado, o mesmo ocorrendo na agricultura; 70% da alimentação consumida chegam de outros países; o povo vive na miséria, a corrupção e o crime organizado imperam.

Retirado do Jornal A Verdade, nº 93

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Mentiras relativas à história da União Soviética

A mentirosa história dos milhões de pessoas que, supostamente, foram encarceradas e morreram nos campos de trabalhos forçados da União Soviética e como resultado da fome durante os tempos de Stálin.

Neste mundo em que vivemos, quem não ouve as terríveis histórias de possíveis mortes e assassinatos nos campos de trabalhos forçados do “gulag” da União Soviética?  Quem não ouve histórias dos milhões que morreram de fome e dos milhões de oposicionistas executados na União Soviética na época de Stálin?  No mundo capitalista, essas histórias são repetidas inúmeras vezes nos livros, jornais, no rádio e na televisão, e nos filmes, e os números míticos dos milhões de vítimas do socialismo aumentaram, aos saltos, nos últimos 50 anos.

Mas, na realidade, de onde vêm essas histórias e essas cifras?  Quem está por trás de tudo isso?

Uma outra pergunta:  o que há de verdade nessas histórias?  E que informações se encontram nos arquivos da União Soviética, anteriormente secretos, mas abertos à pesquisa histórica por Gorbachov em 1989?  Os autores dos mitos sempre disseram que todas as suas histórias dos milhões que morreram na União Soviética de Stálin seriam confirmadas no dia em que os arquivos fossem abertos.  E foi isso que aconteceu?  Elas foram confirmadas de fato?

O seguinte artigo nos mostra de onde se originaram essas histórias de milhões de mortes pela fome e nos campos de trabalhos forçados e quem está por trás delas.

O presente autor, após ter estudado os relatórios da pesquisa feita nos arquivos da União Soviética, pode dar informações, na forma de dados concretos, sobre o número real de prisioneiros, os anos que passaram na prisão e o número verdadeiro daqueles que morreram e daqueles que foram condenados à morte na União Soviética de Stálin.  A verdade é bem diferente do mito.

Existe um elo histórico direto ligando Hitler a Hearst, a Conquest, a Soljenitsin.  Em 1933, ocorreu uma mudança política na Alemanha que iria deixar sua marca na história do mundo por décadas a fora.  Em 30 de janeiro de 1933, Hitler tornou-se primeiro-ministro e uma nova forma de governo, envolvendo violência e desrespeito para com a lei, começou a tomar forma.  A fim de consolidar o seu controle sobre o poder, os nazistas convocaram novas eleições para 5 de março, empregando todos os meios de propaganda ao seu alcance para garantir sua vitória.   Uma semana antes das eleições, em 27 de fevereiro, os nazistas incendiaram o parlamento e acusaram os comunistas de serem os responsáveis.  Nas eleições que se seguiram, os nazistas obtiveram 17,3 milhões de votos e 288 deputados, cerca de 48% do eleitorado (em novembro, eles haviam recebido 11,7 milhões de votos e 196 deputados).  Banido o Partido Comunista, os nazistas começaram a perseguir os social-democratas e o movimento sindicalista, e os primeiros campos de concentração começaram a se encher com todos os homens e mulheres esquerdistas.   Entrementes, o poder de Hitler no parlamento continuou a crescer, com a ajuda da ala de direita.  Em 24 de março, Hitler conseguiu que o parlamento aprovasse uma lei que lhe concedia poder absoluto para governar o país por quatro anos sem consultar o parlamento.  A partir de então, começou a perseguição aberta aos judeus, os primeiros dos quais começaram a ser enviados para os campos de concentração,  onde os comunistas e social-democratas já se encontravam detidos.  Hitler continuou a pressionar no sentido de obter o poder absoluto, denunciando os acordos internacionais de 1918, que haviam imposto restrições ao armamento e militarização da Alemanha.  O rearmamento da Alemanha foi realizado a uma grande velocidade.  Esta era a situação na arena política internacional quando começaram a ser montados os mitos relativos àqueles que morreram na União Soviética.

Leia o texto aqui.

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