A Revolução é inevitável

“Assim como na vida privada se diferencia o que um homem pensa de si mesmo do que ele realmente é e faz, nas lutas históricas deve-se distinguir mais ainda as frases e as fantasias dos partidos de sua formação real e de seus interesses reais, o conceito que fazem de si do que são na realidade.” Karl Marx (1818-1883)

 

Eleito duas vezes presidente da República (2002 e 2006) com grande votação popular Luiz Inácio Lula da Silva, seis meses antes de assumir a Presidência, já deixava claro na Cartaaos Brasileiros,de 22 de junho de 2002,que seu governo nada faria contra as classes exploradoras, isto é, a classe que é proprietária dos meios de produção, dos bancos e dos meios de comunicação. Lembremos um trecho desse documento:

“O novo modelo não poderá ser produto de decisões unilaterais do governo, tal como ocorre hoje, nem será implementado por decreto, de modo voluntarista. Será fruto de uma ampla negociação nacional, que deve conduzir a uma autêntica aliança pelo país, a um novo contrato social,capaz de assegurar o crescimento com estabilidade.”

Como é sabido, na Presidência, Lula nomeou Henrique Meirelles, ex-diretor do Bank Boston e deputado federal do PSDB, para a presidência do Banco Central do Brasil e Antônio Palocci, um dos autores da Carta aos Brasileiros, para ministro da Fazenda¹.

Ao final de oito anos de governo, apesar de ter mais de 80% de aprovação popular, Lula não fez nenhuma mudança no modelo econômico; manteve a política de superávit primário, isto é, priorizou o uso dos recursos públicos para remunerar com altos juros os títulos da dívida pública nas mãos dos banqueiros, reproduzindo, assim, o mecanismo de transferência de riqueza da nação para a oligarquia financeira; ampliou o domínio do agronegócio sobre a agricultura e do capital estrangeiro na economia brasileira, além de ter sido contra uma CPI para investigar o roubo das privatizações realizadas pelo governo do PSDB.

Além de fazer um governo servil às classes dominantes, Lula tornou-se amigo de inúmeros empresários, em particular dos donos das duas maiores empreiteiras do país (OAS e Odebrecht). Desde a ditadura militar, estas empreiteiras receberam vultosos financiamentos públicos e contratos milionários para operar grandes obras públicas pelas quais cobravam preços superfaturados. Tal prática, como reconheceu o próprio PT, não se modificou no governo de Lula nem de Dilma. Em retribuição, essas empresas doaram milhões para as campanhas eleitorais do PT de forma oficial e também via caixa dois. Essa íntima relação chegou ao ponto de o dono da Odebrecht, Emílio Odebrecht, ter declarado em depoimento ao Judiciário, que“a empreiteira bancou cerca de R$ 700 mil anuais de despesas de marketing de uma empresa de Luís, que é filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva…— “Procurei dar como se fosse meu filho em um processo de formação e de empreendedorismo, para que pudesse montar aquilo que desejasse e que tivesse sucesso”. Para usar uma expressão comum no momento, Lula pediu ao dono da Odebrecht que ajudasse seu filho a mudar de lado e tornar-se um patrão.

Lado a lado com a direita

No terreno das alianças políticas, Lula e o PT passaram a alegar que para ter estabilidade política no país e maioria no Congresso Nacional, seria necessário realizar aliança com os partidos da direita, em particular com o PMDB, PP, PTB, etc.

Em carta enviada aos peemedebistas, em março de 2013, Lula escreveu: “No meu governo, o PMDB deu uma contribuição fundamental. No governo da presidente Dilma, estreitamos ainda mais as nossas relações, e Michel Temer tem cumprido papel particularmente significativo”. “Lado a lado, com Dilma e Temer, garantiremos conquistas ainda maiores para o Brasil e para o povo brasileiro”. (Congresso em Foco, 02/03/2013)

Na convenção do PMDB, de 10 de junho de 2014, Dilma Rousseff, justificando essa aliança com o partido de Temer, Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá, afirmou: “Eu preciso do PMDB e quero finalizar dizendo: mais parceiros e irmãos nessa luta que se avizinha. Na nossa união está a nossa força. Viva o PMDB e viva a aliança”.

Porém, em 2016, o Congresso Nacional decretou o impeachment de Dilma, evidenciando o grave erro dessa política de se unir à direita para assegurar governabilidade. Em outras palavras, tanto o impeachment de Dilma quanto a reforma trabalhista foram consequências dessa política de conciliação com a burguesia nacional.

Diga-se de passagem, que tal tática não foi defendida apenas pelo PT, mas também pelo PCdoB. Com efeito, em café da manhã que tomaram juntos no dia 7 de outubro de 2010, Michel Temer (PMDB) e o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, expressaram que “Essa aliança é necessária para êxito eleitoral e para governar o país”. Também o ex-vice-presidente nacional do PCdoB, Aldo Rebelo, falando em nome do seu partido, declarou inúmeras vezes que não existia nenhuma possibilidade de ter no Brasil um governo apenas com a esquerda. Coerente com essa linha política, alguns meses após sair do PCdoB, Aldo Rebelo se filiou ao Solidariedade, partido da Força Sindical e que tem como plataforma principal a defesa intransigente dos lucros dos patrões.

Em vez da luta de massas, judicialização

Mas, apesar de não realizar as transformações que prometeu na campanha eleitoral, o povo brasileiro seguiu sendo generoso com Lula e o PT, elegendo e reelegendo Dilma Rousseff em 2010 e 2014 e colocando Lula na liderança de todas as pesquisas para as eleições deste ano. Ao saber que existia uma ordem de prisão expedida pelo Juiz Sergio Moro, no dia 5 de abril, o ex-presidente se refugiou no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Imediatamente, milhares de pessoas para lá se dirigiram convencidas de que Lula resistiria à arbitrária ordem judicial. No entanto, após dois dias, em 7 de abril, Lula frustrou a multidão: em vez de seguir lutando pela liberdade nas ruas, judicializou a questão e resolveu se entregar à Policia Federal. Lula justificou sua decisão com as seguintes palavras: “Eu não estou acima da Justiça. Se eu não acreditasse na Justiça, eu não tinha feito um partido político. Eu tinha proposto uma revolução nesse país”.

Mas o que é a justiça? A justiça numa sociedade burguesa não pode ser outra coisa que uma justiça burguesa. Como se comprova isso? Se uma mãe ou um pai que tem um filho ou filha passando fome, retirar de um supermercado um leite, pão ou um pacote de macarrão será imediatamente preso em flagrante e poderá ficar anos na cadeia. Já o capitalista, rouba diariamente horas do trabalhador, se apropria do produto que o operário cria com seu trabalho, e, dessa maneira, enriquece, mas isso não é considerado um roubo ou um crime pela Justiça burguesa, mas uma contribuição ao desenvolvimento da nação.

Ao afirmar que confia na Justiça burguesa e se vangloriar de não querer a revolução, Lula despreza inteiramente a doutrina marxista da luta de classes, doutrina esta que, além de coerente e íntegra, é comprovadamente cientifica. Em particular, desconsidera o que Karl Marxe Friederich Engels escreveram no Manifesto do Partido Comunista: “A história de toda a sociedade até hoje é a história da luta de classes … “a moderna sociedade burguesa não aboliu os antagonismos de classe, o que fez foi simplificar esses antagonismos de classe, de forma que toda a sociedade está a cindir-se, cada vez mais, em dois grandes campos hostis, em duas grandes classes em confronto direto: a burguesia e o proletariado”.

A volta das ilusões perdidas

No seu discurso, Lula enumerou alguns pontos do que faria caso se tornasse presidente pela terceira vez: “Não vão vender a Petrobras. Vamos fazer uma nova Constituinte, vamos revogar a lei do petróleo que eles estão fazendo. Não vamos deixar vender o BNDES, não vamos deixar vender a Caixa Econômica, não vamos deixar destruir o Banco do Brasil, e vamos fortalecer a agricultura familiar, que é responsável por 70% do alimento que comemos nesse país”.

Como vemos, não há aí nada que indique querer enfrentar a dominação da burguesia sobre a economia nacional. Governaria, portanto, outra vez, para manter a classe capitalista no poder, seu domínio sobre os meios de produção e a feroz exploração que essa classe realiza dos trabalhadores. Também o ex-presidente Lula nada disse sobre a dívida pública, o sistema financeiro e seus astronômicos lucros.

Ser contra a venda da Caixa, do BNDES, do Banco do Brasil, da Petrobras, apesar de ser uma posição progressista, em nada altera o modelo econômico existente no país, pois os maiores beneficiários dos recursos desses bancos e também dos contratos da Petrobras são a grande burguesia, as empreiteiras, os usineiros e centenas de multinacionais. Basta olhar a relação das empresas beneficiadas com os empréstimos e financiamentos da CEF, do Banco do Brasil e do BNDES para certificar-se dessa verdade.

Ainda em seu discurso, o ex-presidente Lula denunciou Globo, a Record, a Bandeirantes, os grandes meios de comunicação e prometeu, que se eleito, faria a regulação da mídia: “Eles têm de saber que nós vamos fazer definitivamente uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima das mentiras todo santo dia”. Bem, deixamos de lado o fato de que o PT teve 14 anos no governo e não elaborou nenhuma lei para limitar a ação dos meios de comunicação da burguesia. Vamos admitir que, agora, um novo governo do PT levaria a sério esse problema.

Acontece que a regulação dos meios de comunicação é apenas uma invenção da própria burguesia para manter a propriedade privada da mídia e impedir o controle popular sobre esses meios. Em todos os países capitalistas que possuem leis de regulação (Inglaterra, Alemanha, França, Áustria,etc.) nenhuma lei desse tipo altera o fato de os meios de comunicação continuarem sendo propriedade privada do grande capital e dos bancos. Dito de outro modo, regulação alguma fará um meio de comunicação burguês defender o fim da propriedade privada; apoiar uma greve geral dos operários; propor diminuir os lucros da burguesia; defender a nacionalização da terra e a reforma agrária, e muito menos o controle social dos meios de produção.

Portanto, para ocorrer uma real mudança no país, mesmo que seja retirar a posse dos meios de comunicação de uma classe, a burguesa, e colocar nas mãos de outra classe, a operária, é necessário realizar uma revolução. Mas isso, infelizmente, Lula proclama em alto e bom som que não defende.

Ademais, qualquer proposta para regular os meios de comunicação necessita ser aprovada pelo Congresso Nacional, ou seja, por deputados e senadores que serão eleitos numa democracia burguesa. Ora, os partidos com mais tempo de TV e rádio e que receberão a maior parte do dinheiro do fundo eleitoral são os que hoje têm as maiores bancadas. Logo, a tendência é manter o status quo. Não bastasse, a lei eleitoral em vigor permiter as doações de pessoas físicas e se o doador for ele próprio, candidato, não há limite para o autofinanciamento. Ou seja, além de maior tempo de propaganda eleitoral, os partidos da direita e os ricos candidatos têm vários privilégios nas eleições para o Congresso Nacional ou para uma Constituinte que aconteça debaixo do atual sistema.

Tem mais: partidos que defendem o fim da propriedade privada dos meios de produção e da exploração da classe operária, o controle popular da economia, a estatização das empresas privatizadas, o fim do lucro na educação e na saúde, a anulação da dívida pública, como a Unidade Popular (UP), estão, impedidos de disputar as próximas eleições.

Porém, o PT e outros partidos ditos de esquerda ignoram esta realidade e fazem política como se o interesse da burguesia nacional fosse o progresso da nação e não aumentar a exploração dos trabalhadores para crescer seus lucros, ter a posse de todas as terras férteis, se apropriar do patrimônio público e perpetuar o mecanismo da divida pública. Enfim, fazem política como se tivesse sido abolida da sociedade brasileira aquilo que foi nas suas consciências: a contradição antagônica entre patrão e trabalhador.

A causa do retrocesso

Qualquer análise séria da economia capitalista concluirá que as crises econômicas são inevitáveis nesse regime econômico. De fato, segundo o insuspeito órgão de auditoria do Congresso dos Estados Unidos, o General Accounting Office (GAO), entre 1991 e 2001, ocorreram 134 recessões em 87 países em desenvolvimento.

Por sua vez, com a crescente dominação do capital financeiro, o capital é cada vez mais deslocado para a especulação. A consequência são menos indústrias e empresas e mais desempregados.  Para os operários, as crises são ainda mais destruidoras, pois estes só podem se alimentar quando estão trabalhando, quando conseguem vender sua força de trabalho aos donos dos meios de produção. Desempregado, o trabalhador e sua família passam fome, mendigam um pão ou um leite para os filhos, deixam de comprar o gás de cozinha, vão morar nas ruas ou se tornam escravos do tráfico de drogas.

O modo de produção capitalista tem, portanto, uma profunda contradição: a produção é realizada por milhões de pessoas, que vivem na pobreza, mas as fábricas, as terras, as lojas, os bancos são propriedade de uma ínfima minoria,os privilegiados capitalistas.

Dessa forma, quando acontecem as crises econômicas, embora elas sejam marolinhas para as classes ricas, para a grande maioria da sociedade é sofrimento, pobreza e desemprego. Até porque, seja qual for o governo de plantão, ele adota medidas econômicas contrárias aos interesses da maioria do povo, isto é, joga o ônus da crise nas costas dos trabalhadores. São os chamados planos de austeridade ou de ajuste fiscal, com o objetivo de retirar direitos da classe operária, dos camponeses, indígenas e da juventude e garantir que a riqueza da classe capitalista permaneça intocável.

Foi o que fez Dilma Rousseff no seu segundo governo, nomeando o diretor do Bradesco Joaquim Levy para ministro da Fazenda e adotando o ajuste fiscal, que de uma tacada só, cortou R$ 70 bilhões de investimentos sociais e ainda elevou os juros para assegurar o chamado superávit primário e os pagamentos aos banqueiros. O fascista Temer foi ainda pior: congelou os gastos sociais por 20 anos, implementou uma reforma que eliminou históricos direitos dos trabalhadores, aumentou o desemprego e quer acabar com aposentadoria e privatizar a Eletrobras.

Pois bem, na medida em que o capitalismo se desenvolve, essa contradição não desaparece nem diminui; muito pelo contrário, se aprofunda. O antagonismo entre os capitalistas (em número mais reduzido graças ao processo de centralização e concentração do capital) e o proletariado, em vez de se atenuar, aumenta brutalmente. Voltemos ao Manifesto do Partido Comunista:

“Nas crises declara-se uma epidemia social que teria parecido um contrassenso a todas as épocas anteriores – a epidemia da sobreprodução. As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para conterem a riqueza por elas criada. E como supera a burguesia as crises? Por um lado, pela destruição forçada de uma massa das forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda dos mercados velhos. Como, então? Preparando crises mais generalizadas e mais graves e reduzindo os meios para prevenir as crises.”

Não se trata de uma teoria complicada ou difícil de entender. No entanto, lamentavelmente, Lula, o PT e seus seguidores consideram ultrapassada essa científica análise marxista da sociedade. Para eles, o Brasil é um país onde a burguesia nacional é progressista; o MDB tem gente de bem; as Forças Armadas querem a democracia, e devemos acreditar na Justiça burguesa; enfim, vivemos numa democracia e não numa ditadura da burguesia. Confessemos, difícil é admitir alguma base científica nessa análise.

Imobilismo e acomodação das lideranças

Por outro lado, a política de abandonar a luta de classes não só levou o PT a ser dominadopela classe capitalista, como o afastou da luta de massas, dos movimentos sociais e da militância combativa e consciente. Em particular, colocou grande parte do movimento sindical no imobilismo, com a CUT passando a defender como via principal a negociação entre operário e patrão em vez da greve, aderindo, na prática, ao “sindicalismo de resultado” da Força Sindical.

Em 2003, primeiro ano do governo Lula, o número de greves no país foi de 340. Nos anos seguintes, o número de greves não teve grandes alterações. Foi um período de refluxo, no qual os sindicatos e a CUT, que inclusive indicou seu presidente Luiz Marinho para ministro do Trabalho no governo Lula, viveu debaixo do lema de “paz entre as classes”. Tal posição levou o movimento sindical a privilegiar a negociação e o acordo em vez das passeatas e greves, que quando ocorriam, na maioria das vezes, duravam um ou dois dias.

Em 2009, quando o Brasil começa a sentir os primeiros efeitos da crise do capitalismo mundial, ocorreram 518 greves. Em 2013, no terceiro ano do governo Dilma, e após 11 anos de governo do PT, ano que ficou conhecido pelas jornadas de junho, as greves tiveram um enorme ascenso, atingindo 2.050 paralisações e mobilizando mais de dois milhões de trabalhadores.

Em 2014 e 2015, as greves continuaram crescendo, alcançando cerca de 2.000 paralisações. Em 2016, o número de greves bate novo recorde e chega ao total de 2.093, evidenciando que os trabalhadores preferiram a luta como caminho principal para conquistar melhores salários e condições de trabalho.

No movimento estudantil, não foi diferente. A UNE e a Ubes foram tão imobilistas que ficaram conhecidas como entidades chapa branca, porque viviam mais nos gabinetes em Brasília do que mobilizando a juventude contra a privatização da educação e por seus direitos e sonhos.

Em recente entrevista ao UOL, Frei Betto, assessor especial do presidente Lula e coordenador de mobilização social do programa Fome Zero, entre 2003 e 2004, fez a seguinte análise dos governos do PT: “Eu esperava que o PT fosse coerente com as três bandeiras emblemáticas de sua fundação: ser o partido de organização da classe trabalhadora, ser o partido da ética e ser o partido de reformas estruturais… O PT formou mais uma nação de consumistas que de protagonistas políticos e sociais. Não se fez a alfabetização política de nosso povo…Lamento que ele tenha abandonado o trabalho de base, o que reduziu consideravelmente aquela militância aguerrida que varava a noite em campanhas políticas…” (UOL, 25/03/2018).

Dito de outro modo, a política de harmonia entre as classes desarmou os militantes tanto do PT quanto dos sindicatos e do movimento operário e popular. Com efeito, a maioria dos dirigentes do PT e do PCdoB e também das entidades sindicais e populares que dirigem, se burocratizaram, se transformando naquilo que Engels chamou de “aristocracia operária”. Isso ficou demonstrado, na incapacidade que tiveram de organizar uma greve geral ou realizar grandes manifestações para libertar da prisão seu candidato a presidente, uma das principais lideranças sindicais e políticas da história do país, eleito duas vezes presidente da República e presidente de honra do partido da verdadeira socialdemocracia brasileira. Bem, e ainda há quem diga que o reformismo pode ser revolucionário.

Conciliação ou revolução?

Observemos, agora, a evolução do desemprego no Brasil no governo Dilma. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, no final do primeiro governo Dilma, em 2014, o Brasil tinha 6,5 milhões desempregados. Após dois anos, em seu segundo governo, em maio de 2016, os desempregados alcançaram 11 milhões. Quer dizer, mantido o regime capitalista, e após 14 anos de governo, o número de desempregados cresceu.  No dia 26 de abril, o IBGE revelou que o desemprego continua aumentando: agora são 13,7 milhões de pessoas desempregadas.

Verificamos ainda a impossibilidade de se acabar com a pobreza numa economia capitalista.  Em 2016, o Brasil tinha 13,34 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza extrema (Pessoas que sobrevivem com menos R$ 40 por mês). Em 2017, esse número cresceu e atingiu 14,83 milhões. Um crescimento de 11%.  Mas as estatísticas do IBGE, dizem que o PIB cresceu 1% em 2017. Vejam o que é o capitalismo: a economia cresceu 1% e o número de seres humanos vivendo na pobreza extrema aumentou 11%.

Tem mais: ainda em 2016, o Brasil tinha 24,8 milhões de brasileiros vivendo com renda inferior a ¼ do salário mínimo por mês, o equivalente a R$ 220. Isso significa que 12,1% da população do país vive na miséria, números da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2014, o mesmo levantamento do IBGE apontou que eram 16,2 milhões de brasileiros com rendimento mensal abaixo de ¼ do salário mínimo. Assim, somente em dois anos, aumentou em 8,6 milhões o número de pessoas vivendo na miséria.

Não bastasse, os salários também tiveram uma importante redução no seu valor real. Em oito anos, de 2008 a 2015, o salário médio no Brasil caiu 15,3%, revelou estudo da consultoria Korn Ferry. Por sua vez, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirmou que, em 2015, o salário do trabalhador brasileiro teve uma queda de 3,7%, a maior redução nas Américas.

Por outro lado, quatro bancos (Itaú, Santander, Banco do Brasil e Bradesco) tiveram de 2014 a 2016, lucros líquidos de mais de R$ 160 bilhões. Não custa nada repetir a pergunta: pode num sistema em que 25 milhões de pessoas vivem com R$ 220 por mês e outros 14 milhões sobrevivem com 40 reais por mês, uma meia dúzia de famílias se empanturrarem com bilhões e bilhões todos os anos?

Pode-se realmente chamar de democrático um país em que 14,83 milhões de pessoas vivem na pobreza extrema e falta trabalho para 26,4 milhões de brasileiros de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE?

Pode se acreditar na justiça de um sistema que mata de fome milhões para enriquecer um punhado de ricaços?

Portanto, construir um estado de bem-estar social no capitalismo, como demonstra a própria vida, é inviável.

Militarização é fascistização

Nada disso, porém, nega o fato de que o ex-presidente Lula foi arbitrariamente preso, enquanto outros políticos burgueses comprovadamente corruptos, como Temer, Aécio, Eliseu Padilha, Moreira Franco, Renan Calheiros, Geraldo Alckmin, José Serra, Eduardo Paes, João Dória, o vende-pátria FHC, estão todos soltos e continuam tramando para cometer mais crimes contra o povo e a pátria.  Lula, embora tenha cometido crime de corrupção, foi preso para inviabilizar sua participação nas eleições.

De fato, na atual e mais profunda crise do imperialismo capitalista desde a 2ª Grande Guerra Mundial, a grande burguesia nacional e estrangeira, as grandes corporações mundiais, necessitam o mais rápido possível impor um governo fascista no Brasil para assegurar lucros extraordinários para a classe capitalista, maior dominação dos países imperialistas sobre as riquezas da nação e reprimir ferozmente o movimento operário e popular.

É claro que um governo de Lula e do PT, apesar de favorável à burguesia e ao capitalismo, devido à base social que formou o partido e a sua história, não seria favorável à fascistização do governo. Por isso, o PT se tornou descartável para as classes dominantes.

No dia 3 de abril, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, escreveu: “Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”. No dia seguinte, o Exército divulgou nota de apoio ao general declarando: “o Comandante do Exército é a autoridade responsável por expressar o posicionamento institucional da Força e tem se manifestado publicamente sobre os temas que considera relevantes”. Tais declarações explicitaram o que já vínhamos denunciando há tempo: o Exército burguês, mais uma vez, se oferece como alternativa para ser o executor da via fascista no Brasil.

Diante do avanço fascista, o reformismo afirma que o povo está apático e que temos que recuar do nosso programa. Mentira! Como se pode dizer que a classe operária brasileira não tem disposição de luta, se, quando convocada ela foi às ruas? Não é verdade que mais de 40 milhões de trabalhadores pararam o país em 28 de abril de 2017 contra a reforma trabalhista e que continuariam em greve se as direções das centrais sindicais não tivessem se apequenado diante da burguesia e de seu sistema? Não é verdade que em, 24 de maio do ano passado, milhares de trabalhadores marcharam em Brasília contra a reforma da Previdência e que estavam dispostos a ocupar o Palácio do Planalto e decretar o impeachment de Temer e, outra vez, as lideranças reformistas preferiram desmobilizar as massas e deixar tudo para ser resolvido nas eleições de outubro?

Também não é verdade que, diante da brutal e covarde execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL do Rio de Janeiro, e do motorista Anderson Gomes, mais de cem mil pessoas foram às ruas dizer não à violência fascista num estado que está sob intervenção militar do Exército?

Por que então a esquerda reformista e acomodada insiste em que a alternativa para derrotar a direita e o fascismo não é a luta de massas?

Age assim porque, igualmente ao ex-presidente Lula, na prática, não defende uma revolução popular, não acredita que no século XXI a classe operária possa conquistar o poder político e formar um exército popular. Por isso, toda vez que as massas se organizam para o combate, imediatamente decretam uma meia-volta, suspendem a luta e dizem que vão esperar uma data de votação no Congresso ou o resultado de um recurso na Justiça.

Temem o que é inevitável de ocorrer numa sociedade capitalista: a revolução socialista! Com efeito, as causas profundas da miséria, da pobreza, do desemprego não são removidas por simples reformas no sistema capitalista. Por isso, é inevitável, a derrocada da classe que está no poder, a burguesia, e sua substituição, pela classe que é hoje oprimida e explorada, a classe operária.

Só conquista quem luta

Nada disso, entretanto, deve nos tirar do verdadeiro caminho revolucionário. As massas, a classe operária, os camponeses lutam para garantir seu direito à vida, salvar seus filhos e filhas da fome, ter uma pátria soberana e acabar com a exploração, a corrupção e a injustiça. É preciso, portanto, organizar o povo nos bairros e os trabalhadores nas fábricas, a juventude nas escolas e universidades para buscarem o que é seu. Unir todos os explorados em torno de propostas que realmente promovam uma transformação em nosso país, apresentandoum programa que realmente convença as massas de que haverá uma mudança radical na sua vida.

Não basta, pois, falar que não vai vender esse ou aquele banco, essa ou aquela empresa ou fazer promessas de distribuição e diminuição da pobreza que na primeira crise se transformam em espumas. É necessário levantar bandeiras que permitam acabar com a desumana exploração das massas, anular a dívida pública e o mecanismo de transferência dos recursos públicos para os banqueiros, estabelecer o controle dos trabalhadores sobre a produção e a distribuição dos produtos, acabar com a espoliação do Brasil pelo capital estrangeiro, nacionalizar o sistema financeiro e retirar as terras das mãos da burguesia e a entregar aos camponeses, garantir o direito ao trabalho e à redução da jornada de trabalho, revogar a famigerada reforma trabalhista.

Esta não é uma luta que será vencida num dia e numa noite; a vitória será consequência de nossa determinação, de um trabalho perseverante e firme. Muito embora, temos pouco tempo para construir um partido de massas revolucionário e torná-lo a esperança de transformação da vida de nosso povo.

Precisamos, portanto, trabalhar para formar centenas e milhares de combatentes da causa da revolução, dispostos a entregar a vida para salvar a vida de todo um povo, e da nação e que saibam de que não há força mais poderosa que a força da classe operária, unida, organizada e consciente de seus objetivos.

Isso quer dizer que existem na luta política realmente dois lados: o lado da burguesia, essaminoria insignificante que assalta os cofres públicos e explora o povo, e o lado dos trabalhadores, a imensa maioria da sociedade, que é duramente explorado. Eis a questão: servir à burguesia ou servir à classe operária. Ser reformista ou ser revolucionário. Consequentemente, existem também duas táticas: a tática da socialdemocracia, que se limita a propor reformas no capitalismo e causou retrocesso na consciência de classe; e a tática dos comunistas revolucionários, que aponta para a conquista do poder político como objetivo estratégico do movimento operário e popular, que defende organizar as massas exploradas para lutar por seus direitos, pela revolução e pelo poder popular.

Luiz Falcão, membro do Comitê Central do PCR e diretor de redação de A Verdade

¹“Eu e Palocci somos unha e carne. Tenho total confiança nele”. Presidente Lula em maio de 2005.

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Karl Marx vive!

Trabalhadores comemoram bicentenário de Karl Marx em todo o mundo

Neste ano, em 5 de maio, completam-se 200 anos do nascimento de Karl Marx, dirigente do proletariado que edificou uma concepção científica e revolucionária da sociedade, destacado pensador da história da humanidade.

Lênin explica que as fontes da teoria científica de Marx foram o Socialismo Utópico Francês, a Filosofia Clássica Alemã e a Economia Política Inglesa. A partir da crítica a estas correntes de pensamento, Marx construiu uma interpretação científica da sociedade que o conduziu a reconhecer a classe operária como dirigente de um processo revolucionário que deverá conduzir à ditadura do proletariado. Marx formulou a concepção materialista da história na qual identificou a base da sociedade com as relações sociais de produção, relações sobre as quais se sustentam as ordens jurídica, política e ideológica. Nem as normas que regulam a vida social, nem a forma como se exerce o poder (a forma do Estado), nem a maneira em que os indivíduos representam a realidade (a ideologia) podem explicar-se por si mesmas, mas são definidas a partir da base econômica, sendo consistente com ela no sentido em que contribuem para sua reprodução.

Em sua obra O Capital, Marx analisou em profundidade a base econômica da sociedade capitalista partindo da teoria do valor do trabalho da economia política inglesa. De maneira rigorosa localizou a origem da mais-valia na exploração da força de trabalho, desvelando assim a ganância do capital como apropriação de trabalho alheio. Estudou os processos de acumulação e centralização de capital demonstrando que, durante o desenvolvimento do modo de produção capitalista é inerente a concentração da riqueza e a deterioração cada vez maior das condições de vida e de trabalho da classe operária, assim como o incremento do desemprego e do grau de exploração da força de trabalho.

Nesta obra, Marx esclareceu a origem e o futuro do sistema capitalista e provou que a acumulação originária de capital se fundou na apropriação, no saque, na conquista, na fraude e na violência reacionária, elementos com os quais se sustenta até agora esse regime. Demonstrou também que o capitalismo corresponde unicamente a uma etapa do desenvolvimento histórico da humanidade; explicou as crises econômicas e apontou as contradições próprias desse sistema, que irá se resolver com a transformação revolucionária da sociedade, com a construção do socialismo e a ditadura do proletariado na perspectiva da construção do comunismo.

Marx entendeu o estudo e a reflexão teórica da realidade, não como um fim em si mesmo, mas como elementos para sua transformação consciente, daí a crítica a Feuerbach na tese “Os filósofos não fizeram senão interpretar de diversas maneiras o mundo, mas se trata é de transformá-lo”. De maneira consequente, uniu o seu trabalho científico à sua prática política. Em 1847, ingressou com Frederich Engels na Liga dos Comunistas, sendo encarregado de redigir o Manifesto do Partido Comunista, em 1848. Em 1864, participou da fundação da Associação Internacional de Trabalhadores.

As teses políticas, econômicas e filosóficas de Marx, e do marxismo-leninismo em geral, não são apenas vigentes, mas constituem a base fundamental para compreender o presente e transformá-lo de acordo com os interesses históricos da classe operária.

Faz já dois séculos que este homem abriu o caminho que devia seguir o proletariado mundial para alcançar sua libertação. Karl Marx assentou as bases do comunismo mundial ao descobrir as contradições do capitalismo através de suas diferentes obras, sendo mais que um filósofo, um militante comunista ativo de uma ideologia nascente, mas bem cimentada sobre a análise das condições materiais da sociedade capitalista. Assim, a teoria e a prática do marxismo são as ferramentas mais eficazes para a conquista da revolução socialista, questão compreendida por uma parte da juventude; porém, outra grande parte cai nas garras de filosofias subjetivas e idealistas, do anarquismo e da socialdemocracia. Por isso, é fundamental a divulgação e propagação da verdadeira teoria de Marx e Engels, formarmos politicamente e ideologicamente inúmeros quadros, e difundirmos amplamente o pensamento materialista-dialético nas classes exploradas e assim criar progressivamente o exército proletário-camponês que porá fim ao atual estado burguês e construir o futuro socialista que recomendou o camarada Karl Marx.

Partido Comunista Revolucionário (PCR)

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A Revolução Socialista Russa de 1917

Um trem chega a Petrogrado. Uma multidão de operários, soldados e marinheiros espera um homem. Sua irmã, Maria, e sua amiga Alexandra Kollontai¹ abraçam-no. Tcherkheidze, líder menchevique, saúda-o em nome do Soviete de Operários e Soldados de Petrogrado. Ele dá-lhe pouca atenção. Sobe em um banco e dirige-se à multidão: “Caros camaradas, soldados, marinheiros e operários, eu os saúdo em nome da Revolução Russa, vanguarda do exército proletário mundial. Não está longe a hora em que os povos voltarão suas armas contra os capitalistas, seus exploradores. A revolução feita por vocês abriu uma nova época”. Silêncio atento. Ele prossegue, referindo-se à guerra imperialista (1ª Guerra Mundial em que a Rússia está envolvida): “Abaixo a guerra assassina e odiada. Paz imediata!”. A multidão ovaciona. A partir daquele instante, reconhece o seu verdadeiro líder, o líder maior da revolução, Lênin. Era o dia 16 de abril de 19172.

O capitalismo começou a desenvolver-se na Rússia mais tarde que em outros países da Europa e sob a dependência destes. Internamente, a burguesia se formou a partir do latifúndio e em aliança com ele.

A monarquia czaristaaboliu o regime de servidão no campo em 1861, mas, na prática, a submissão continuou, uma vez que os camponeses pobres não tiveram garantida a posse da terra; foram expulsos ou obrigados a fazer “parcerias” em que os donos da terra nada investiam e recebiam geralmente metade da colheita. Para as revoltas, a repressão permanecia brutal, intocável, mantidos os castigos corporais, inclusive.

Apesar desses limites, a indústria cresceu rapidamente. De 1865 a 1869, o número de operários dobrou (de 706 mil para 1,433 milhão). No final da década de 1890, era de 2,792 milhões, com a industrialização atingindo 50 províncias.

Movimento operário e marxismo: fusão decisiva

O crescimento da classe operária, aliado à manutenção de péssimas condições de trabalho, salários baixos, superexploração de homens, mulheres e crianças não tardou a provocar mobilizações reivindicatórias. Nasceram as primeiras organizações operárias.

Nessa mesma época, surgiram também as primeiras organizações marxistas, os círculos, compostos por intelectuais que traduziam, comentavam e divulgavam as obras marxistas. Um dos seus integrantes, Vladimir Ilitch Ulianov (Lênin. A Verdade nº 49), um jovem advogado, compreendeu que era necessário fundir o marxismo com o movimento operário, e os operários mais avançados deviam fazer agitação entre as massas, combinando as reivindicações econômicas (salários, condições de trabalho) com as políticas (derrubada do czarismo). Lênin dizia que “teoria não é dogma e sim guia para a ação”. Utilizando o método dialético (marxista), ele estudou profundamente a realidade russa e a evolução do capitalismo no período posterior à morte de Marx e Engels e concluiu que, em vez de se dar no centro do sistema, a revolução socialista poderia começar pelos países atrasados e dependentes, como a Rússia, os chamados elos fracos da corrente imperialista.

A União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, reunindo intelectuais e operários avançados, concretizou a fusão preconizada por Lênin; o movimento operário foi se fortalecendo até passar a intervir diretamente na vida política do país. Em 1898, realizou-se o congresso de fundação do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR).

As Jornadas de 1905

Em 9 de janeiro de 1905, 140 mil operários ocuparam as ruas centrais de São Petersburgo3, concentrando-se pacificamente em frente ao palácio imperial para apresentar reivindicações de leis que possibilitassem a melhoria de suas condições de vida e trabalho. A resposta foi uma fuzilaria que vitimou cerca de mil manifestantes. Não houve recuo. As greves se alastraram por todo o país, resultando num avanço organizativo sem precedentes com a criação dos sovietes, conselhos representativos de toda a classe em nível de um município, de uma província, de uma região.

O ano de 1905 foi também de muita agitação no campo. Os camponeses pobres marcharam espontaneamente sobre a propriedade dos latifundiários, destruindo bens e se apossando dos grãos. A rebelião grassou também entre os militares, especialmente os marinheiros, registrando-se em junho a sublevação do Encouraçado Potemkin (navio de guerra).

Em 1905, os bolcheviques compreendiam que a revolução em curso na Rússia era de caráter burguês, mas a burguesia não tinha condições de levá-la a cabo, cabendo, pois, ao proletariado converter-se em dirigente do movimento revolucionário, aliando-se aos camponeses pobres e recusando qualquer tipo de acordo com a burguesia. Os mencheviques entendiam, ao contrário, que sendo a revolução de caráter democrático-burguês, a burguesia é que deveria dirigi-la.

No outono de 1905, o movimento revolucionário já se estendia a todo o país. Em outubro, uma greve geral atinge toda a Rússia, envolvendo um milhão de operários. Os sovietes multiplicaram-se. A luta camponesa aguçou-se. Os marinheiros sublevaram-se. Os bolcheviques conclamaram as massas à insurreição armada.

A insurreição desencadeou-se em Moscou, logo que o czar determinou a dissolução dos sovietes e a prisão dos líderes bolcheviques. A greve geral não se estendeu a toda a Rússia, o que facilitou a repressão. Outras regiões se lançaram também às armas, mas o exército imperial dominou-as e, em 1907, tinha fim o movimento revolucionário.

Na clandestinidade, os bolcheviques passaram, nessa fase de refluxo, a utilizar todas as possibilidades legais de ação, como as associações de socorro mútuo e a própria Duma (parlamento controlado pelo czar).

Em 1912, o movimento operário já promove greves em todo o país, de caráter econômico e político, e os camponeses também retomam suas lutas contra os latifundiários. Os sovietes proliferam. Os bolcheviques multiplicam as organizações do partido e criam um jornal diário, dirigido por Josef Stálin,chamadoPravda (A Verdade), com tiragem de 40 mil exemplares, que se torna instrumento de informação e orientação dos operários de todo o país.

1ª Guerra Mundial

No dia 1º de agosto de 1914, a Alemanha declara guerra à Rússia e o governo de Nicolau II decreta a mobilização geral. Trava-se uma guerra entre blocos de potências imperialistas pela divisão do mundo, cada uma querendo uma fatia maior. De um lado, Alemanha e Áustria; do outro, Inglaterra, França e Rússia. O partido da burguesia liberal (os kadetes), os socialistas-revolucionários (partido camponês) e os mencheviques, de pronto, uniram-se ao czarismo para “defender a pátria”.

O Partido Bolchevique, desde o início posicionou-se firmemente no sentido de que os operários e os camponeses deveriam lutar contra essa guerra, pois não se tratava de patriotismo, e sim de imperialismo, de dominação dos povos mais fracos. A palavra de ordem bolchevique foi a de transformar a guerra imperialista em guerra civil, isto é, os soldados operários e camponeses deveriam voltar as armas contra as burguesias de seus países, derrubando-as do poder.

A perseguição policial aos bolcheviques foi intensa. Todos os deputados bolcheviques que votaram na Duma contra os créditos de guerra foram presos.A guerra foi um desastre para a Rússia. Não poderia ser diferente, pois na frente de batalha havia um exército de operários e camponeses famintos, nus, descalços e sem motivação, pois estava claro que aquela guerra não era do seu interesse. A economia estava em crise profunda. Fábricas paradas, produção agrícola em decadência. Diminuíam as riquezas da burguesia e os trabalhadores estavam a cada dia mais imersos na fome, na miséria, no sofrimento.

O ódio e a indignação tomam conta dos operários, camponeses pobres e soldados, que se conscientizaram de que para viver precisavam de pão, terra e paz.  O czar Nicolau II está isolado porque a burguesia se descontenta e prepara um golpe palaciano para derrubá-lo.

Os operários também querem derrubar o imperador, mas seus métodos são outros.O ano de 1917 começa com a retomada de grandes greves e manifestações de massa que ganham a cada dia novos adeptos.

Jornadas de Fevereiro na Rússia

O período de 22 a 27 de fevereiro(07 a 12 de março no calendário atual) é de convulsão em todo o país. No dia 26 (11 de março), os operários de Petrogrado recebem o apoio de um batalhão do exército, que abre fogo contra a guarda imperial quando ela vai dissolver uma manifestação. No dia seguinte, os operários se armam e mais soldados se sublevam. O czarismo está morto. A Revolução de Fevereiro teve, de fato, como base os sovietes de operários e soldados. Eles eram os órgãos do poder popular.

O proletariado fez a revolução, mas a burguesia (kadetes), os latifundiários aburguesados e a pequena-burguesia (socialistas-revolucionários e mencheviques) é que assumiram o poder, instalando um Governo Provisório sem levar em consideração os sovietes. Estes, entretanto, constituíram um governo paralelo, estabelecendo-se uma dualidade de poderes.

Cinco dias depois da Revolução de Fevereiro, o Pravda volta a circular abertamente, buscando esclarecer os operários e os camponeses de que o governo provisório burguês representa a continuidade da guerra imperialista e da mesma política de exploração e fome adotada pelo czarismo.

Não foi um trabalho difícil. O Governo Provisório permanecia surdo às reivindicações do povo e definiu a continuidade da Rússia na guerra. Foi neste clima que Lênin desembarcou em Petrogrado.

No dia 16 de junho, reuniu-se o I Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, no qual os bolcheviques ainda eram minoria. Mas em Petrogrado, o maior centro industrial do país, a predominância das ideias bolcheviques entre o povo já era evidente. Prova disso é que, no dia 18, 400 mil manifestantes desfilaram pelas ruas centrais da cidade, proclamando: “Abaixo a guerra! Abaixo os ministros capitalistas! Todo o Poder aos Sovietes!”.

Nos dias seguintes, o Governo Provisório determinou a repressão às massas e a prisão dos líderes bolcheviques. Lênin, mais uma vez, ingressou na clandestinidade.

O VI Congresso do Partido Bolchevique, realizado clandestinamente de 26 de julho (8 de agosto) a 3 de agosto (16 de agosto), avaliou que não havia mais condições de continuar a luta pacífica e já se tinha acumulado forças suficientes para a insurreição armada.

As forças burguesas ameaçaram esmagar a sangue e fogo qualquer tentativa de movimento revolucionário. A seguir, Kerenski (ministro social-revolucionário) incentivou um golpe planejado pelo general Kornilov, mas retirou seu apoio quando soube que não haveria espaço para ele e seria instaurada uma ditadura militar.

A derrota do golpe foi, entretanto, mérito exclusivo dos operários, soldados e marinheiros rebeldes. O episódio fortaleceu a influência bolchevique nas massas dos grandes centros e logo os sovietes de Petrogrado e Moscou contavam com maioria revolucionária.

Outubro: dez dias que abalaram o mundo

Entre a decisão do Comitê Central do Partido Bolchevique e a tomada do poder, foram dez dias de muita movimentação, definição de estratégia e tática militares, mobilizações, divisão de tarefas. Em meados de outubro, Lênin havia chegado a Petrogrado clandestinamente e comandava pessoalmente todos os preparativos.

O levante armado começou no dia 24 de outubro (6 de novembro) com a ocupação dos órgãos de imprensa da capital. A 25 de outubro (7 de novembro), as tropas revolucionárias ocuparam tranquilamente os correios e telégrafos, os ministérios, o Banco do Estado e cercaram o Palácio do Inverno. Aí, ainda se esboçou alguma resistência, resolvida rapidamente com a chegada do Cruzador Aurora, comandado pelos marinheiros de Kronstadt.

Uma nova era começava. Na mesma noite, instalou-se o II Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia com maioria bolchevique. Lunachárski, dirigente bolchevique, leu uma proposta redigida por Lênin e aprovada pelo Pleno do Congresso: “Apoiando-se na vontade da enorme maioria dos operários, soldados e camponeses,o congresso toma o poder nas suas mãos”.

Enquanto isso, reunido com o Centro do Partido, órgão que dirigiu a insurreição vitoriosa, Lênin declarava: “Comecemos imediatamente a edificação do socialismo!”.

Luiz Alvesadvogado

 

¹ Alexandra Kollontai, ministra do governo bolchevique e escritora. Autora de A Nova Mulher e a Moral Sexual.

²O calendário russo era diferente do ocidental. De acordo com ele, a Revolução Socialista ocorreu no dia 25 de outubro. Em janeiro de 1918, foi aprovado o uso do calendário ocidental. Assim, continuou a denominação Revolução de Outubro, mas sua comemoração ocorre em 7 de novembro, de acordo com o novo calendário.

³Fundada pelo czar Pedro, o Grande, em 1703, São Petersburgo teve o nome alterado para Petrogrado. A partir de 1924, o nome mudou novamente para Leningrado, em homenagem ao grande líder da Revolução Bolchevique. Com a retomada do poder pela burguesia imperialista, a cidade voltou, em 1991, a se chamar São Petersburgo.

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A Revolução Russa e a transformação na Educação

Em Petrogrado, então capital do decadente Império Russo, milhares de operários, camponeses e soldados, sob a direção política do Partido Bolchevique, tomaram o poder na Rússia em 1917 e instauraram um novo regime político e passaram à construção do socialismo, no qual todas as riquezas passaram a pertencer ao povo. Contudo, a revolução não pode ser vista apenas como um evento limitado àquela data de 25 de outubro (7 de novembro), mas sim como um processo que teve recuos e ápices, antes e depois. Um exemplo disso foi a educação e a ciência, pois, por séculos, a maioria dos russos e demais nacionalidades tiveram negado o direito à formação acadêmica e profissional, sem contar que, mesmo com mentes brilhantes vivendo em solo russo, os incentivos à ciência eram irrisórios.

Isso não ocorreu por acaso. Para manter sob as mais duras rédeas e condições 100 milhões de russos, ucranianos, cazaques, finlandeses, uzbeques, poloneses, armênios, entre outras nacionalidades, o czarismo negava qualquer tipo de incentivo à educação, visando a manter na ignorância e no obscurantismo milhões de indivíduos. As poucas universidades e centros de educação eram mantidos pela Igreja Ortodoxa, aliada do czar, que perseguia as lideranças, fossem estudantes ou professores, que questionassem a ordem vigente. Muitos camponeses, em pleno século 20, ainda acreditavam que o czar Nicolau II fora escolhido por intervenção divina como “líder” do país. Essa mentalidade precisava ser combatida com um gigantesco processo de educação popular tanto nas cidades quanto no campo.

Grandes nomes na área da ciência e da educação, como o do fisiologista Ivan Pavlov, e do psicólogo Lev Vygostky, foram financiados pelo Estado após a revolução, com suas pesquisas sendo destinadas ao bem comum da sociedade, não para enriquecimento individual. A grande mentora deste novo modelo de educação e ciência na Rússia Soviética foi a educadora comunista NadezhdaKrupskaya que, muito antes da Revolução de Outubro, já vinha fazendo um enorme trabalho de alfabetização de operários e soldados, seguindo um modelo que fez sucesso entre milhares de pessoas, no qual aqueles que obtinham sucesso na alfabetização tinham, como única condição de contrapartida, a tarefa de ajudar os demais colegas nesse processo de educação popular.

Educação gratuita

Krupskaya entrou para a história como uma das primeiras mulheres a ocupar um alto cargo de Estado, a de comissária do Povo de Instrução Pública, equivalente ao cargo de ministra da Educação. Sua formação em Pedagogia a ajudara na elaboração de um projeto de ensino formador e emancipador, definindo as bases do novo sistema educacional. Teve artigos publicados no jornal Pravda (A Verdade), em meados de 1917, nos quais abordava a importância da juventude na construção do socialismo. A União Soviética, em pouco tempo, não apenas erradicou o analfabetismo a índices decimais, como também se tornou o primeiro Estado a garantir educação gratuita e com amplo acesso, desde a creche até a universidade.

O lema “Que aquele que sabe ler e escrever ensine àquele que não sabe” era a diretiva repassada às instituições de ensino e distritos do imenso território soviético. Comissões de acompanhamento e orientação foram criadas, como a Comissão Extraordinária de Eliminação do Analfabetismo, em 1920. Além disso, para a industrialização que o país necessitava, desde os transportes até a eletrificação, apenas a formação profissional dos operários e da juventude era capaz de tornar vitoriosa a construção da indústria socialista. A NEP, e depois os planos quinquenais, foram a sequência de um projeto econômico que tinha a educação como principal aliada. A planificação da economia, em substituição à antiga anarquia capitalista da produção, era essencial ao funcionamento do país, no qual o ensino politécnico, ligando a teoria à prática, era a base educacional deste projeto.

Ao camponês, a distribuição das terras e a extinção do latifúndio não poderiam ser consideradas como o fim dos conflitos agrários. Para o fortalecimento da consciência de classe dos trabalhadores do campo, fez-se necessário não apenas alfabetizar, como também construir mecanismos de formação profissional e incentivo econômico aos pequenos agricultores e cooperativas de camponeses. Enquanto que, no czarismo, eles tinham suas plantações roubadas e suas vidas constantemente ameaçadas, no socialismo o Estado se punha como protetor e como financiador do trabalho do camponês. O acesso às escolas politécnicas, a fabricação em larga escala de tratores e a promoção da cultura, com a instalação de cinemas nos mais remotos vilarejos, são exemplos da intervenção do Estado na melhoria das condições de vida do povo do campo.

Uma nova mentalidade nas escolas

Nas cidades, grandes universidades foram erguidas, pois dali sairiam professores, engenheiros, médicos, advogados, psicólogos, biólogos, filósofos, antropólogos, entre outros, todos comprometidos com a sociedade a que pertenciam, comprometidos com o seu próprio povo, recebendo uma educação de alta qualidade, com todos os direitos garantidos, desde o transporte gratuito aos estudantes até a garantia da alimentação e da moradia. Totalmente diferente é a mentalidade no sistema de educação capitalista, o qual apregoa o acesso à universidade como uma forma de promoção individual, no qual o conhecimento ali adquirido servirá para enriquecimento pessoal e/ou das empresas que o contratarão.

O sistema de educação socialista, na URSS, foi, é e será referência a todos os povos que lutam contra as grandes lacunas existentes de profissionais preparados para enfrentar os desafios dos mais diversos ramos. A derrota da Alemanha Nazista, uma potência mundial, foi fruto do esforço e do sacrifício de dezenas de milhões de homens e mulheres soviéticas nas frentes de batalha. Contudo, as modernas armas, os modernos transportes e a moderna tecnologia, todas socialistas, foram essenciais na derrota da besta nazista na Segunda Grande Guerra. Tudo isso foi possível graças às grandes realizações no campo da educação e da ciência, realizadas pela juventude e pelos trabalhadores soviéticos profundamente ligados à construção do socialismo, com a edificação da sua própria pátria, defendendo-a de todas as formas possíveis, mantendo viva a chama da liberdade.

Matheus Nascimento, Belém

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A imprensa como organizador coletivo

No seu artigo Até a raiz (v. o nº 98 da Pravda), Ingúlov tratou da importante questão do significado da imprensa para o Estado e o Partido. Parece que, para reforçar a sua tese, valeu-se do Informe de Organização do Comitê Central, onde se afirma que a imprensa “estabelece vínculos de importância incalculável entre o Partido e a classe operária, veículos que pela sua força equivalem a qualquer aparelho de transmissão que possua caráter de massas, que a imprensa é o instrumento mais poderoso pelo qual o Partido, cotidianamente, de hora em hora, fala com a classe operária”.

Mas, na sua tentativa para resolver a questão, Ingúlov cometeu dois erros: em primeiro lugar, tergiversou o sentido do trecho citado do Informe do Comitê Central; em segundo lugar, perdeu de vista o papel importantíssimo de organizador da imprensa. Creio que, dada a importância da questão, conviria dizer algumas palavras sobre estes erros.

  1. Do informe não se deduz o fato de que a função do Partido se deveria limitar a tarefa de falar com a classe operária, mas, ao contrário, o Partido deveria conversar e não apenas falar com a classe operária. A contraposição da fórmula “falar” à fórmula “conversar” não passa de equilibrismo insensato. Na prática, uma ou outra coisa constituem um todo indivisível, que se exprime na constante ação recíproca entre o leitor e o escritor, entre o Partido e a classe operária, entre o Estado e as massas trabalhadoras. Esse fenômeno se tem verificado desde o começo da existência do Partido proletário de massas, desde os tempos da velha Iskra. Ingúlov errou ao pensar que essa influência recíproca só teve início alguns anos depois da tomada do Poder pela classe operária na Rússia. O sentido da passagem citada, extraída do Informe do Comitê Central, não se encerra na palavra “falar”, mas no fato de que a imprensa “estabelece vínculos entre o Partido e a classe operária”, vínculos “que, pela sua força, equivalem aos de qualquer aparelho de transmissão que tenha caráter de massas”. O sentido da citação reside na importância da imprensa no terreno da organização. Justamente por isso a imprensa foi incluída no Informe de organização do comitê central como uma das correias de transmissão entre o Partido e a classe operária. Ingúlov não compreendeu a citação e involuntariamente lhe tergiversou o sentido.
  2. Ingúlov sublinha o papel da imprensa como instrumento de agitação e denúncia, acreditando que aí termina a tarefa da imprensa periódica. Alude a uma série de absurdos cometidos no nosso país, afirmando que o trabalho de denúncia da imprensa, a agitação através da imprensa, constituem a “raiz” do problema. Ora, é claro que, não obstante toda a importância do papel de agitação da imprensa, o aspecto mais imediato do nosso trabalho de edificação consiste, hoje, na função organizadora da imprensa. Não basta que os jornais agitem e denunciem mas é preciso que tenha uma ampla rede de ativistas, de agentes e de correspondentes em todo país, em todos os centros industriais e agrícolas, em todos os distritos e subdistritos, para que o fio passe do Partido, através do jornal, a todas as zonas operárias e camponesas, sem exceção; para que a ação recíproca entre o Partido e o Estado, por um lado, e as zonas industriais e camponesas, por outro, seja completa. Se um jornal tão popular como, por exemplo, o Biednotá*, convocasse de quando em quando uma conferência dos seus principais agentes, em diversos centros do país, para uma troca de ideias e um balanço das experiências, e cada um desses agentes convocasse por sua vez uma reunião dos seus correspondentes nas próprias zonas, nos vários centros e distritos, com o mesmo fim, dar-se-ia desse modo o primeiro passo, não somente para estabelecer vínculos orgânicos entre o Partido e a classe operária, entre o estado e os mais distantes rincões do nosso país, mas também para melhorar e reanimar a própria imprensa, para melhorar e reanimar todos os colaboradores da nossa imprensa periódica. Essas conferências e reuniões tem, a meu ver, uma importância muito mais concreta do que os congressos de jornalistas “de toda a Rússia” e de outro gênero. O jornal, como organizador coletivo nas mãos do Partido e do Poder Soviético, o jornal como meio para estabelecer a ligação com as massas trabalhadoras do nosso país e para reagrupá-las em torno do Partido e do Poder Soviético: esta é, agora, a tarefa imediata da imprensa.

Não será supérfluo recordar ao leitor algumas linhas do artigo do camarada Lenin Por Onde Começar “escrito em 1901”, a propósito da função organizadora da imprensa periódica na vida do nosso Partido:

“A função do jornal não se limita, todavia, a difundir ideias, e educar politicamente e a conquistar aliados políticos. O jornal não é apenas um propagandista e um agitador coletivo, mas também um organizador coletivo. Desse ponto de vista, pode-se compará-lo aos andaimes que se erguem em torno de um edifício em construção, aos quais definem os seus contornos, facilitam as comunicações entre os construtores, ajudam-nos a subdividir o trabalho e a observar os resultados gerais alcançados pelo trabalho organizado. Por intermédio do jornal e graças a própria existência do jornal, se formará de modo espontâneo uma organização permanente, que se ocupará não só do trabalho local, mas também do trabalho sistemático geral, que habituará os seus componentes ao estudo atento dos acontecimentos políticos, a avaliar-lhes a importância e a influência sobre as diferentes camadas da população, a elaborar os métodos oportunos para exercer sobre estes acontecimentos a influência do Partido revolucionário. Por si mesma a tarefa técnica de assegurar ao jornal um fornecimento regular de matérias e uma distribuição normal obriga também a criar uma rede de agentes locais que pertençam a um único Partido e mantenham contato imediato entre si, conheçam o quadro geral dos acontecimentos, habituem-se a cumprir regularmente a parte que lhes cabe do trabalho a realizar em toda Rússia e experimentem as suas forças na organização de determinadas ações revolucionárias. Esta rede de funcionários constituirá também o esqueleto da organização de que precisamos: suficientemente grande para abarcar todo país; suficientemente vasta e multíplice para estabelecer uma rigorosa e pormenorizada divisão do trabalho; suficientemente firme para saber desenvolver ininterruptamente o seu trabalho em todas as circunstâncias em face de todas as “reviravoltas” e situações inesperadas; suficientemente flexível para saber, por um lado, evitar a batalha em campo aberto contra um inimigo de forças superiores, que tenha concentrado as suas forças num só ponto, e, por outro lado, aproveitar a incapacidade de manobra do inimigo para precipitar-se sobre ele no lugar e no momento em que menos o espere”.

O camarada Lenin falava então do jornal como de um instrumento que servia para edificar o nosso Partido. Mas não há razão para duvidar de que tudo o que disse o camarada Lenin seja inteiramente aplicável a situação em que, hoje, edificamos o Partido e o Estado.

Ingúlov deixou de levar em consideração, no seu artigo, essa importante função organizadora da imprensa periódica. Este é o seu erro principal.

Como pode ocorrer que um dos quadros principais da nossa imprensa tenha perdido de vista esta importante tarefa? Ontem, dizia-me um camarada que provavelmente Ingúlov, além da tarefa de resolver o problema da imprensa, também se propôs outra, secundária: a de “censurar uns e lisonjear outros”. Não posso afirmar isso e estou longe de negar a quem quer que seja o direito de se atribuir tarefas secundárias, além das principais. Mas não é admissível que as tarefas secundárias possam ofuscar mesmo que por um instante a tarefa principal, que é a de esclarecer o papel de organização na imprensa na nossa edificação do Partido e do Estado.

 

*Biednotá (“Os Pobres”), diário, órgão do C. C. do P. C. (b) da U.R.S.S., editado de março de 1918 a janeiro de 1931. (pág. 239).

“Pravda” (“A Verdade”), nº 99.

06 de maio de 1923Assinado: J. Stálin

 

J.V. STÁLIN – OBRAS 5 (1921-1923)Editorial Vitória Ltda. 1954-

 

 Traduzido da edição italiana – G. V.  Stálin –“ Opere Complete”

 vol. 5 EdizioniRinascita – Roma – 1952.

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Escola Nacional Manoel Lisboa

conferência 04Reunida no mês de junho, a Comissão Política do Comitê Central do Partido Comunista Revolucionário (PCR) decidiu pela realização, no fim deste ano, da primeira turma da Escola Nacional de Formação Política e Ideológica Manoel Lisboa. A escola reunirá durante 14 dias dois grupos de militantes, oriundos de diferentes regiões do país, para cumprir o conteúdo programático aprovado.

O programa de estudos da escola inclui a análise aprofundada do método filosófico marxista-leninista, do materialismo-dialético; dos fundamentos da economia política marxista; das características da sociedade capitalista em sua fase imperialista; das leis econômicas e das experiências do modo de produção socialista; da teoria da revolução proletária; dos traços fundamentais da história e da revolução brasileira; da história militar das revoluções; e das tarefas dos comunistas revolucionários frente à atual crise do capitalismo.

A construção da Escola Nacional Manoel Lisboa, como ação sistemática e permanente, é uma iniciativa de grande importância para a história dos comunistas brasileiros por permitir aprofundar e agilizar a formação política e ideológica de novos quadros revolucionários.

Com a consciência de que, como afirmou Lênin, “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário”, a Comissão Política registrou que, ao longo de sua história, o PCR sempre se esforçou para levar à prática este princípio de organização.

Manoel Lisboa, em seu artigo Vencer as torturas é dever revolucionário, afirmou que uma das causas da conduta vacilante dos militantes de outras organizações revolucionárias diante da repressão – vacilações que chegavam ao ponto da delação – era a débil formação política e ideológica.

Mesmo diante das duras condições impostas pela ditadura militar, o PCR foi coerente com a necessidade da formação e editou a revista Luta Ideológica, números 1 e 2, e o jornal A Luta. Além disso, todo organismo partidário era obrigado a ter um plano de estudos, e cada militante tinha tarefas individuais de leitura.

Desde a reconstrução do PCR, o Comitê Central sempre recomendou que cada coletivo se esforçasse para realizar o estudo do marxismo-leninismo de maneira prioritária em suas reuniões. Além disso, o CC realizou quatro cursos nacionais de formação marxista-leninista nos últimos anos.  Também ocorreu um importante número de iniciativas de formação em âmbito regional, bem como por parte da União da Juventude Rebelião (UJR).

A Comissão Política considera importante que a escola dedique seu tempo ao estudo dos princípios leninistas de organização. Que se dedique ao debate sobre como desenvolver o trabalho político entre a classe trabalhadora e o povo, como realizar a agitação e a propaganda, sobre a melhor forma de atuar nos sindicatos, sobre como assistir um coletivo e sobre como realizar um curso de formação marxista em seu local de atuação. Neste sentido, a primeira turma da escola será direcionada aos quadros de direção, ou seja, aos militantes que já possuem certo conhecimento da teoria marxista-leninista e desenvolvem tarefas de direção em nível nacional ou regional.

Para a Comissão Política, o êxito da Escola Nacional depende da disciplina, dedicação, entusiasmo e trabalho em colaboração – contra a competição e o egoísmo – por parte de seus instrutores e estudantes. Os participantes da escola devem ter vontade de aprender e aprofundar os conhecimentos, levantando dúvidas e participando ativamente do debate de ideias.

Para o PCR, a formação da Escola Nacional busca atingir o objetivo de formar verdadeiros quadros revolucionários para o Partido, fazendo assim triunfar a revolução socialista no Brasil. Desta maneira, a Comissão Política convoca todas as direções estaduais e demais organismos partidários a se envolverem com afinco no cumprimento das tarefas que permitam efetivar a escola, em especial aquelas que dizem respeito à construção material e financeira.

Redação A Verdade

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O exército burguês deve e pode ser destruído

Trabalhadores em PinheirinhoExiste, em muitos companheiros e também no seio do povo, medo do exército burguês.

Muitos acham impossível vencê-lo e veem o exército exatamente como a ditadura quer: como uma coisa que está acima de nós.

Companheiros, antes de tudo, devemos pensar direitinho no que é o exército burguês. Esse exército (da burguesia) defende os interesses dos capitalistas, defende a propriedade privada (dos capitalistas) e oprime o povo contra qualquer revolta, pois nada temos para ser defendido pelo exército (da burguesia); apesar de a gente sempre ouvir dizer que o exército é o defensor da nação, O QUE VEMOS DE VERDADE É O EXÉRCITO DEFENDER OS INTERESSES DOS RICOS PARASITAS CONTRA O POVO TRABALHADOR.

Os capitalistas usam os órgãos de propaganda (rádio, jornal, televisão) e empregam a educação (o ensino) para fazer o povo acreditar que o exército defende os interesses da nação e não dos capitalistas. Querem convencer o povo de que o exército é honesto e defensor da nação, e fazer todos respeitá-lo, senão quem iria morrer nas guerras pela burguesia? Por isto, desde criança aprendemos a respeitar o exército, a propriedade dos ricos, o presidente da República e demais autoridades burguesas.

O exército da burguesia está realmente forte no momento, mas isto não significa que ele nunca será derrubado. Pensar assim é não conhecer a força da nossa própria classe; é não entender que a nossa união é uma grande força para destruir a força repressiva da burguesia. Com a nossa união e organização, podemos colocar no lugar deste exército burguês, antipopular, antinacionalista e lacaio dos interesses estrangeiros, isto é, devemos colocar no lugar desta corja um exército formado pelos melhores companheiros das classes trabalhadoras. Este, sim, será um exército realmente popular porque formado por pessoas do povo, por pedreiros, carpinteiros, torneiros, soldadores, serventes, tecelões, estudantes, sapateiros, camponeses, comer-ciários, etc. Será um exército popular e revolucionário porque defenderá os verdadeiros interesses do povo e lutará por uma sociedade melhor, uma sociedade mais perfeita e mais justa, luta por uma sociedade socialista.

O mais importante para um exército vencer e dominar é contar com o apoio do povo. A propaganda não pode ocultar a verdade nua e crua das desigualdades sociais, o desemprego, os salários baixos, a injustiça e todos os males do capitalismo. Eis a principal questão: eles têm armas, dinheiro, soldados, MAS NÃO TÊM O POVO. E como este exército da burguesia não é amado pelo povo brasileiro, nós devemos formar nosso exército. Para destruirmos este exército, que é da burguesia, temos que formar o nosso próprio exército, o exército do proletariado.

E como formar o nosso exército?

Ora, já vimos que quando estamos fracos temos que usar formas de luta mais simples para nos fortalecer. É justamente isto que falta cada companheiro compreender para colocar em prática estas questões. Já temos os exemplos do povo russo, do povo chinês, do povo cubano e exemplos de muitos outros povos, que organizados derrubaram os exércitos burgueses que ós oprimiam. No Vietnã está o mais belo exemplo de como um povo atrasado (economicamente) derrotou o exército francês e está derrotando o exército mais poderoso do mundo capitalista, as forças armadas america-nas. E o que fizeram os vietnamitas?  Lutaram, se organizaram e incenti-varam os outros a se organizar como nós, do Conselho de Luta, estamos fazendo. Saíram, de boca em boca, ensinando a verdade sob uma ditadura pior e mais sangrenta do que a nossa. Com grandes dificuldades (para aprender mais), publicavam jornais debaixo do pano, explicando, incentivando e ensinando o povo a se organizar.

O que devemos fazer?

Para formar nosso exército, dependemos unicamente do nosso esforço. Do esforço de cada um que já tem consciência, em ir organizando as massas (o povo desorganizado) e ir dando consciência aos que quase nada sabem a respeito da luta de classes, da nossa luta, e ir aumentando o número de pessoas para nossa organização, e assim iremos formando nosso Partido e daí iremos criando o nosso exército, com as pessoas conscientes de todos os setores da população, desde os companheiros operários, que serão os dirigentes da nossa luta, até os camponeses, os estudantes, funcionários públicos, pessoas politicamente boas que existam dentro das próprias forças armadas do inimigo, enfim de todas as camadas exploradas da população e que apoiam de verdade as nossas ideias e nossos métodos de luta. Temos que conscientizar as pessoas e trazê-las para nós; assim teremos condições de criar nosso exército.

Bom, companheiros, existem muitas formas de luta; o que estamos precisando é a decisão e firmeza dos companheiros para continuar os trabalhos de panfletagem que temos feito dentro das fábricas e nos bairros, desenvolver o trabalho político com outros companheiros e participar do trabalho teórico, que é escrever para os nosso jornais. Todas estas formas de luta têm a finalidade de esclarecer e organizar o povo para que ele pegue em armas de maneira consciente.

Só na luta aprendemos a confiar em nós mesmos, em nossa força, porque defendemos os verdadeiros interesses do povo e lutamos pela justiça. É isto que nos dá certeza da vitória da LUTA OPERÁRIA por meio do exército revolucionário do povo, contra o exército mercenário (vendido) da burguesia.

Todo esforço no trabalho de conscientizar o povo, todo esforço no trabalho de educar para a luta os melhores elementos das classes traba-lhadoras e trazê-los para o Conselho de Luta Operária. Todo esforço nos trabalhos que levam a formar um Partido Operário, pois o exercito revolucionário do povo, só obedecerá a um único comando que será o Partido Operário.

Só com coragem, decisão e firmeza é que se luta.

Só na luta é que se forma o Partido Comunista Revolucionário.

Só na luta se constrói o exército revolucionário do povo.

* Escrito por Manoel Lisboa em agosto de 1973, um mês antes de ser assassinado pela Ditadura Militar, e publicado na revista do PCR Luta Operária, nº 10

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O QUADRO: COLUNA VERTEBRAL DA REVOLUÇÃO

Che em discursoSeria desnecessário insistir nas características de nossa Revolução, na forma original, com alguns lances de espontaneidade, com que se produziu a passagem de uma revolução nacional de libertação para uma revolução socialista e na acumulação das etapas vividas a toda pressa no decorrer deste desenvolvimento, que foi dirigido pelos mesmos personagens da epopéia inicial de Moncada, passando pelo Granma e terminando na declaração do caráter socialista da Revolução cubana. Novos simpatizantes, quadros, organizações foram se somando à débil estrutura orgânica do movimento inicial, até se constituir no aluvião do povo que caracteriza nossa Revolução.

Quando se tornou patente que em Cuba uma nova classe social tomava definitivamente o poder, surgiram também as grandes limitações que se teria no exercício do poder estatal, devido às condições em que se encontrava o Estado, sem quadros para desenvolver o estado, sem quadros para desenvolver as tarefas que deviam se desempenhadas no aparelho estatal, na organização política e em toda a frente econômica.

No momento seguinte à tomada do poder, os cargos burocráticos foram designados “a dedo”; não houve maiores problemas, não os houve porque ainda não estava rompida a velha estrutura. O aparelho funcionava no seu ritmo lento e cansado de coisa velha e quase sem vida, mas tinha uma organização e nela a condição suficiente para se manter por inércia, não se importando com as mudanças políticas que ocorriam como prelúdios de mudança na estrutura econômica.

A 16 de abril de 1961, durante os funerais das vítimas do bombardeio do dia anterior dos aeroportos de Santiago de Cuba, San Antonio de los Banos e Ciudad Libertad, efetuado como preparação da invasão mercenária da Baía dos Porcos, Fidel Castro pronunciou a primeira confirmação oficial do caráter socialista que fora adquirindo nos fatos a Revolução Cubana: “… o que não podem perdoar-nos é que estejamos aqui, sob seu nariz, e que tenhamos feito uma Revolução Socialista sob o nariz dos Estados Unidos!”.

Em meados de 1960 se produzia entre Washington e Havana uma verdadeira escalada que radicalizava cada vez mais profunda e irreversivelmente a Revolução. As principais consequências desta situação foram as seguintes: rejeição da parte das empresas Esso, Texaco, e Shell de refinar o petróleo bruto soviético que Cuba tinha começado a importar (6 de junho); desapropriação destas companhias da parte do governo revolucionário (29 de junho de 1º de julho); redução da parte de Washington da quota de açúcar cubano no mercado norte-americano (6 de julho); suspensão total da quota; nacionalização das grandes companhias norte-americanas que operavam em Cuba (6 de agosto); mobilização da OEA contra Cuba (29 de agosto); desapropriação dos bancos norte-americanos (17 de setembro); nacionalização do resto dos interesses norte-americanos em Cuba (13 de outubro); aplicação da parte dos Estados Unidos um embargo sobre numerosos produtos de exportação para Cuba (19 de outubro).

O Movimento 26 de Julho, profundamente abalado pelas lutas internas entre suas alas esquerda e direita, não podia se dedicar a tarefas construtivas; e o Partido Socialista Popular*, pelo fato de suportar duros golpes e a ilegalidade durante anos, não pode desenvolver quadros intermediários para enfrentar as novas necessidades que se avizinhavam.

Quando ocorreram as primeiras intervenções estatais na economia, a tarefa de formar quadros não era muito complicada e podia-se escolher entre muita gente que tinha alguma base mínima para desempenhar o cargo de direção. Mas, com o aceleramento do processo, ocorrido a partir da nacionalização das empresas norte-americanas e, posteriormente, das grandes empresas cubanas, aconteceu uma verdadeira fome de técnicos administrativos. Sente-se, por outro lado, uma necessidade de técnicos na produção, devido ao êxodo de muitos deles, atraídos por melhores posições, oferecidas pelas companhias imperialistas em outros lugares da América ou mesmo nos Estados Unidos, de modo que o aparelho político deve se submeter a um intenso esforço, em meio às tarefas de estruturação, para dar atenção ideológica, a uma massa que entra em contato com a Revolução, cheia de vontade de aprender.

Todos cumprimos o papel da melhor maneira que podemos, mas não foi sem penas nem apuros. Muitos erros foram cometidos na parte administrativa do executivo, enormes falhas foram cometidas por parte dos novos administradores de empresas, que tinham responsabilidades demasiadamente grandes em suas mãos, e grandes e caros erros cometemos também no aparelho político, que, pouco a pouco, foi caindo numa tranquila e prazerosa burocracia, identificado quase como um trampolim para promoções e para cargos burocráticos de maior ou menor envergadura, desligado totalmente das massas.

O ponto central de nossos erros está em nossa falta de sentimento de realidade num dado momento. Mas a ferramenta que nos faltou, o que foi embotando nossa capacidade de percepção e convertendo o Partido numa entidade burocrática, pondo em perigo a administração e a produção, foi a falta de quadros desenvolvidos a nível médio. A política de quadros se tornava evidente como sinônimo de política de massas; estabelecer novamente o contato com as massas, contato estreitamente mantido pela Revolução na primeira fase de sua vida e que era sua palavra de ordem. Mas estabelecê-lo através de algum tipo de aparelho que permitisse tirar-lhe o maior proveito, tanto na percepção de todas as palpitações das massas como na transmissão das orientações políticas que, em muitos casos, somente foram dados por intervenções pessoais do Primeiro Ministro Fidel Castro ou de alguns outros líderes da Revolução.

A esta altura podemos nos perguntar: o que é um quadro? Devemos dizer que um quadro é um indivíduo que alcança o suficiente desenvolvimento político para poder interpretar as grandes diretrizes emanadas do poder central, torná-las suas e transmiti-las como orientação à massa, percebendo, além disso, as manifestações dessa massa com aos seus desejos e motivações. É um indivíduo de disciplina ideológica e administrativa que conhece e pratica o centralismo democrático e sabe avaliar as contradições existentes no método para aproveitar ao máximo suas múltiplas facetas; quem sabe praticar, na produção, o princípio da discussão coletiva e responsabilidade única; cuja finalidade está provada e cujo valor físico e moral se desenvolveram no compasso de seu desenvolvimento ideológico, de tal maneira que está sempre disposto a enfrentar qualquer debate e responder até com sua vida pela boa marcha da Revolução. É, além disso, um indivíduo com capacidade de análise própria, o que lhe permite tomar decisões necessárias e praticar a iniciativa criadora de modo que não se choque com a disciplina.

O quadro, pois, é um criador, um dirigente de alta estatura, um técnico de bom nível político, que pode, raciocinando dialeticamente, levar adiante seu setor de produção ou desenvolver a massa desde o seu posto político de direção.

Este exemplar humano, aparentemente rodeado de virtudes difíceis de alcançar, está, no entanto, presente no povo de Cuba, e nós o encontramos todo dia. O essencial é aproveitar todas as oportunidades que há para desenvolvê-lo ao máximo, para educá-lo, para tirar de cada personalidade o maior proveito e convertê-la no valor mais útil possível à nação.

Consegue-se o desenvolvimento de um quadro na labuta diária. Mas deve-se empreender a tarefa, além disso, de um modo sistemático, em escolas especiais, onde professores competentes sejam exemplos aos alunos, favorecendo a mais rápida ascensão ideológica.

Num regime que inicia a construção do socialismo, não se pode supor um quadro que não tenha um alto desenvolvimento político, mas por desenvolvimento político não se deve entender só o aprendizado da teoria marxista; deve-se também exigir a responsabilidade do indivíduo pelos seus atos, a disciplina que restringe qualquer debilidade transitória e que não esteja em conflito com uma alta dose de iniciativa, a preocupação constante por todos os problemas da Revolução. Para desenvolvê-lo é necessário começar por estabelecer o princípio seletivo na massa, é ali onde é necessário buscar as personalidades nascentes provadas no sacrifício ou que começam agora a mostrar suas inquietudes, e levá-las a escolas especiais, ou, na falta delas, para cargos de maior responsabilidade que ponha à prova no trabalho prático.

Assim fomos encontrando uma multidão de novos quadros, que se desenvolveram nestes anos; mas seu desenvolvimento não foi uniforme, posto que os jovens companheiros se viram frente à realidade da criação revolucionária sem uma adequada orientação de partido. Alguns triunfaram plenamente, mas há muitos que não puderam fazê-lo completamente e ficaram na metade do caminho, ou simplesmente se perderam no labirinto burocrático ou nas tentações que dá o poder.

Para assegurar o triunfo e a consolidação total da Revolução, necessitamos desenvolver quadros de diferentes tipos; o quadro político, que seja a base de nossas organizações de massa, e que as oriente através do Partido Unido da Revolução Socialista* (já se está começando a estabelecer as bases com as escolas nacionais e provinciais de Instrução Revolucionária e com os estudos e círculos de estudo de todos os níveis); também necessita-se de quadros militares para os quais se pode utilizar a seleção que a guerra fez a nossos jovens combatentes, já que ficou com vida uma boa quantidade, sem grandes conhecimentos teóricos, mas provados no fogo, provados nas condições mais duras da luta e de uma fidelidade a toda a prova como regime revolucionário, a cujo nascimento e desenvolvimento estão intimamente ligados desde as primeiras guerrilhas da Sierra. Devemos promover também quadros econômicos que se dediquem especificamente às tarefas difíceis da planificação e às tarefas da organização do Estado Socialista nestes momentos de criação.

É necessário trabalhar com profissionais, estimulando os jovens a seguir algumas das carreiras técnicas mais importantes para tentar dar à ciência o tom de entusiasmo ideológico que garanta um desenvolvimento acelerado. E é imperativo criar a equipe administrativa que saiba aproveitar e harmonizar os conhecimentos técnicos específicos com os demais e orientar as empresas e outras organizações do Estado para integrá-las ao forte ritmo da Revolução. Para todos eles, o denominador comum é a clareza política. Esta não consiste no apoio incondicional aos postulados da Revolução, mas sim num apoio racional, numa grande capacidade de sacrifícios e numa grande capacidade dialética de análise, que permite fazer contínuas contribuições, em todos os níveis, à rica teoria e a prática da Revolução. Estes companheiros devem ser selecionados na massa, aplicando-se o princípio único de que o melhor sobressaia e que ao melhor sejam dados as maiores oportunidades de desenvolvimento.

Em todos estes lugares, a função do quadro, apesar de ocupar frentes distintas, é a mesma. O quadro é a peça mestra do motor ideológico que é o Partido Unido da Revolução. É o que poderíamos chamar de parafuso dinâmico deste motor: parafuso enquanto peça funcional que assegura seu correto funcionamento, dinâmico enquanto não é um simples transmissor para cima ou para baixo de lemas e demandas, mas um criador que ajudará o desenvolvimento das massas e a informação dos dirigentes, servindo de ponto de contato com aqueles. Tem uma importante missão de vigilância para que não se liquide o grande espírito da Revolução, para que esta não durma, não diminua seu ritmo. É um lugar sensível; transmite o que vem da massa e lhe infunde o que orienta o Partido.

Desenvolver os quadros é, pois, uma tarefa inadiável no momento. O desenvolvimento dos quadros tem sido tomado com grande empenho pelo Governo revolucionário; com seus programas de bolsa de acordo com princípios seletivos, com os programas de estudo para os operários, dando diferentes oportunidades de desenvolvimento tecnológico, com o desenvolvimento das escolas secundárias e as universidades abrindo novas carreiras, com o desenvolvimento, enfim, do estudo, do trabalho e da vigilância revolucionária como lemas de toda a nossa pátria, baseados fundamentalmente na União de Jovens Comunistas, de onde devem sair os quadros de todo o tipo e ainda os quadros dirigentes da Revolução no futuro.

Intimamente ligado ao conceito de quadro está o da capacidade de sacrifício, de demonstrar com o próprio exemplo as verdades e as palavras de ordem da revolução. O quadro, como dirigente político, deve ganhar o respeito dos trabalhadores com sua ação. É imprescindível que conte com a consideração e o carinho dos companheiros a que devem guiar nos caminhos da vanguarda. Por tudo isso, não há melhor quadro do que aquele cuja massa realiza eleição nas assembleias que designam os operários exemplares, os que serão integrados ao PURS (Partido Unido da Revolução Socialista) junto com os antigos membros do ORI (Organizações Revolucionárias Integradas), que passem por todas as provas de seleção exigidas. A princípio, constituirão um partido pequeno, mas sua influência entre os trabalhadores será imensa; e logo este crescerá, quando o avanço da consciência socialista for se convertendo em necessidade o trabalho e a entrega total à causa do povo. Com dirigentes médios dessa categoria, as difíceis tarefas que temos pela frente serão cumpridas com menos contratempos. Depois de um período de desordem e de maus métodos, chegou-se a uma política justa, que não será jamais abandonada. Com o estímulo sempre renovado da classe operária, nutrindo com suas fontes inesgotáveis as filas do futuro Partido Unido da Revolução Socialista, e com a direção de nosso partido, entramos com tudo na tarefa de formação de quadros que garantam o desenvolvimento impetuoso de nossa Revolução. Haveremos de triunfar nesta empreitada.

Cuba Socialista, Setembro, 1962.

Comandante Ernesto Guevara de La Serna

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(*) O Partido Socialista Popular era um partido socialista anterior à Revolução e análogo a outros partidos de outros países.

(*) O primeiro esforço das organizações revolucionárias cubanas pela constituição de um partido marxista-leninista unificado na fase posterior à Revolução, foi a criação das ORI (Organizações Revolucionárias Integradas), agrupando num único organismo político o Movimento 26 de Julho, o Partido Socialista Popular e o Diretório Estudantil Revolucionário. Em função de sérios desvios de caráter sectário, as ORI foram extintas e se passou à formação do Partido Unido da Revolução Socialista, que posteriormente deu origem ao Partido Comunista de Cuba.

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